Deschamps lança alerta forte: quem acredita num passeio francês estreia-se a sério contra o fantasma do Senegal. A França, apontada como uma das grandes favoritas à conquista do Mundial, tem pela frente uma estreia carregada de simbolismo e perigo diante do Senegal, a mesma seleção africana que há 22 anos eliminou os gauleses de forma humilhante logo na fase de grupos. O duelo está marcado para esta terça-feira, no MetLife Stadium, com a paisagem dos arranha-céus de Manhattan como pano de fundo — mas a verdadeira pressão será sentida dentro das quatro linhas.
Os Bleus chegam a este Mundial depois de terem estado nas finais das duas últimas edições e de entrarem com o estatuto de superpotência, mas é impossível ignorar o trauma do Mundial de 2002. Nessa altura, também campeões em título, os franceses caíram sem marcar um único golo, vítimas de um Senegal aguerrido que venceu por 1-0, numa das maiores surpresas da história da competição. Agora, liderados por Didier Deschamps — que, curiosamente, não estava no plantel desse fiasco pois já se tinha retirado — procuram evitar repetir a história. Aos 57 anos, Deschamps está prestes a fechar um ciclo de 14 anos à frente da seleção e sabe que cada detalhe pode ser decisivo.

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A relevância deste encontro não se resume apenas ao passado: a França está no centro das atenções e cada movimento será escrutinado. O arranque num grupo de quatro equipas é sempre fundamental, e um deslize pode obrigar a correr atrás do prejuízo. O plantel de luxo dos franceses inclui nomes como Kylian Mbappé — que se prepara para conquistar a 99.ª internacionalização e iguala Pelé como sexto melhor marcador da história dos Mundiais, com 12 golos —, Ousmane Dembélé e o recém-chegado Michael Olise, estrela em ascensão e autor de um hat-trick no último jogo de preparação frente à Irlanda do Norte. A França venceu por 3-1 nesse ensaio, mas ainda digere a derrota por 2-1 frente à Costa do Marfim, o único desaire no último ano, que serviu como aviso sério à navegação.
Didier Deschamps não esconde a preocupação com o excesso de confiança. “O primeiro jogo é muito importante, mas não é decisivo. Começar com uma vitória num grupo de quatro equipas é o ideal e é sempre o objetivo”, explicou o selecionador na conferência de imprensa de segunda-feira. “Mas há um aspeto que não conseguimos medir nem quantificar: o lado emocional. Alguns jogadores podem ficar tensos com o ambiente à volta do jogo. O ideal é estar concentrado, mas também relaxado.” O treinador francês fez ainda questão de sublinhar a valia do adversário: “O Senegal é um oponente de altíssimo nível.”
No mês passado, Deschamps já tinha manifestado desconforto quanto ao favoritismo excessivo atribuído à sua equipa: “Já há quem fale em estarmos presentes a 19 de julho e isso não me agrada, nada mesmo”, afirmou, referindo-se à data da final. “Sim, podemos ser uma das melhores equipas, mas sei demasiado bem que há passos importantes a dar antes de pensar em ir tão longe.”
A solidez defensiva dos franceses assenta na dupla de centrais William Saliba e Dayot Upamecano, enquanto o meio-campo é comandado por Aurélien Tchouaméni, do Real Madrid. N’Golo Kanté, um dos três sobreviventes da final de 2018, partilhou o sentimento que se vive no grupo: “Este é o meu segundo Mundial. Em 2018 era tudo novo e foi lindo ganhar. Agora é diferente. Temos jogadores novos, mas continua a ser especial. Quero aproveitar ao máximo e voltar a vencer”, declarou o médio de 35 anos.
Com um ataque temível e alternativas de luxo como Rayan Cherki, Bradley Barcola, Désiré Doué, Marcus Thuram, Jean-Philippe Mateta e Maghnes Akliouche, a França chega cheia de soluções. No entanto, a história mostra que favoritismo não ganha jogos e o Senegal já provou ser um adversário traiçoeiro — e perigoso precisamente quando todos o subestimam. O passado serve de alerta: qualquer excesso de confiança pode custar caro.
O próximo passo para os Bleus será ultrapassar este teste de fogo sem escorregadelas e cimentar a sua candidatura ao título logo à primeira jornada. Uma vitória convincente servirá para afastar os fantasmas do passado e tranquilizar adeptos e crítica, mas qualquer deslize abrirá feridas antigas e colocará pressão máxima para os jogos seguintes. O desafio está lançado: saberão Deschamps e a sua armada francesa resistir à armadilha emocional e ao perigo real que o Senegal representa? O futebol mundial estará atento, à espera de respostas no arranque de mais uma campanha repleta de expectativas.
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