Gianluca Prestianni, o jovem extremo do Benfica, está no epicentro de uma tempestade mediática e desportiva após alegações de insultos racistas dirigidos a Vinícius Júnior, avançado do Real Madrid. As consequências podem ser severas, com uma possível suspensão mínima de 10 jogos à espreita, além de uma potencial queixa-crime em Portugal, conforme alertou Lúcio Miguel Correia, especialista em Direito do Desporto.
“Estamos a falar de sanções que, pela gravidade da situação, podem ir de uma multa de milhares de euros até uma suspensão temporária que pode ultrapassar os 10 jogos”, afirmou Correia, professor na Universidade Lusíada de Lisboa, em declarações à agência Lusa. O incidente ocorreu na terça-feira, durante o confronto da primeira mão do playoff da Champions, onde o Real Madrid triunfou por 1-0. Após marcar o único golo da partida, Vinícius Júnior alegadamente foi alvo de um insulto racista por parte de Prestianni, levando o árbitro francês François Letexier a interromper o jogo e ativar o protocolo antirracismo.
Em Portugal, ofensas raciais, como chamar alguém de 'macaco', são tratadas como crime, o que pode levar o Ministério Público a avançar com um processo. Além disso, o próprio Vinícius Júnior tem a opção de apresentar queixa às autoridades portuguesas. Apesar das graves acusações, Prestianni negou veementemente ter proferido qualquer insulto, enquanto Vinícius e outros jogadores do Real confirmaram a ofensa.
Se as alegações se confirmarem, Prestianni não só enfrentará pesadas multas, mas também consequências laborais e criminais. “O comportamento é antiético e pode haver um processo disciplinar do próprio clube”, frisou Correia. Ele sublinhou que “chamar 'macaco' ou usar expressões de teor racista é um crime em Portugal”, ressaltando a necessidade de uma investigação cuidadosa e abrangente.
Contudo, o jurista fez questão de destacar que a aplicação das sanções requer uma “prova mais profunda, mais substancial”. A certeza do árbitro sobre a veracidade das palavras proferidas e a identidade do autor é crucial. “O árbitro tem de ter uma certeza inequívoca de que as palavras foram proferidas, quem as proferiu e que foram de teor racista, coisa que, a meu ver, deixa dúvidas, porque o atleta veio desmentir”, argumentou Correia.
Ele ainda acrescentou que “não basta a simples denúncia” do jogador brasileiro, mesmo que corroborada por colegas de equipa como Kylian Mbappé. O protocolo antirracismo deve ser aplicado apenas se não houver dúvidas sobre a prática dos atos. O relatório do árbitro será a “peça fundamental” para o processo que a UEFA abrirá, especialmente em situações onde as imagens de televisão possam não ser conclusivas.
A postura de Vinícius Júnior em campo, que já gerou controvérsias em outros jogos, também é mencionada por Correia como uma consideração na análise do incidente. “O comportamento do atleta não pode valer tudo. Há limites no desporto de alto rendimento e a sua postura pode dar origem a situações de animosidade, embora sem nunca desculpabilizar [o racismo]”, concluiu.
O Benfica, por sua vez, reafirmou a sua confiança na versão de Prestianni, considerando as acusações como parte de uma “campanha de difamação”. O clube da Luz anunciou que colaborará integralmente com a UEFA, que já designou um inspetor de ética e disciplina para investigar a situação, prevendo-se que ambos os atletas sejam ouvidos nos próximos dias. A tensão é palpável, e os desdobramentos deste caso poderão ter um impacto significativo não só na carreira de Prestianni, mas também na luta contra o racismo no desporto.
