Enquanto Vinicius Jr se sentava sozinho no banco de suplentes do Estádio da Luz, a tensão pairava no ar. Os ânimos estavam à flor da pele entre treinadores e jogadores, enquanto o avançado do Real Madrid, visivelmente afetado, tomava um gole de água. O brasileiro havia reportado ao árbitro Francois Letexier que tinha sido alvo de abuso racial por parte do médio do Benfica, Gianluca Prestianni, uma acusação que o internacional argentino nega veementemente. A situação escalou rapidamente, levando Letexier a interromper a partida, levantando o braço em um gesto cruzado para indicar que havia uma alegação de abuso racista.
Momentos antes, Vinicius havia brilhado em campo, anotando um golo de classe mundial que garantiu a vitória do Real Madrid por 1-0 no primeiro jogo da fase de eliminatórias da Liga dos Campeões. No entanto, em vez de se focar no bem-estar do jogador, a atenção voltou-se para o protocolo e o processo a seguir. Vinicius parecia ser deixado de lado, enquanto o jogo foi reiniciado apenas 10 minutos depois do incidente.
O árbitro francês irá agora redigir o seu relatório para a UEFA, que iniciará a sua própria investigação sobre os eventos ocorridos em Lisboa. Mas a questão que paira é: poderia esta situação ter sido gerida de uma maneira melhor? “É a menos má de um conjunto de opções terríveis”, disse Sanjay Bhandari, presidente da Kick It Out, em declarações à BBC Sport. “Ninguém se sente realmente feliz com isso, e todos parecem insatisfeitos. Mas não creio que alguém tenha conseguido apresentar uma alternativa melhor.”
A UEFA introduziu o seu protocolo de três passos contra o racismo em 2009, conferindo aos árbitros a autonomia para interromper os jogos. Este é o funcionamento do protocolo: se um jogador reportar alegações de racismo, o árbitro não pode agir se não ouvir o que foi dito. O jogo é interrompido e os detalhes são entregues ao quarto árbitro. Na terça-feira, Vinicius decidiu sair de campo, e a situação transformou-se numa questão de diplomacia entre as equipas para reiniciar a partida.
Se houvesse abuso racial por parte dos adeptos, algo mais comum, uma declaração seria feita. Caso o racismo persistisse, seja por parte de jogadores ou torcedores, o jogo poderia ser suspenso por um período mais longo e um novo aviso seria emitido pelo sistema de som público. Se a situação não melhorasse, o jogo poderia ser abandonado. Bhandari comentou que o protocolo de três passos “não foi invocado muitas vezes”, mas quando isso acontece, gera um “debate bastante saudável”.
Este protocolo já foi utilizado na Premier League, no início desta temporada, pelo árbitro Anthony Taylor, quando Antoine Semenyo afirmou ter sido alvo de abuso racial por parte de um adepto durante o jogo do Bournemouth em Anfield. Em 2013, a UEFA elaborou a sua política externa “O futebol europeu unido contra o racismo”, impulsionada por Gianni Infantino, que na altura era secretário-geral do organismo. O documento delineou 11 resoluções que definem as responsabilidades de jogadores, treinadores, clubes e adeptos, e Infantino conseguiu a suspensão de “pelo menos 10 jogos” para jogadores considerados culpados.
Em 2021, Ondrej Kudela, do Slavia de Praga, foi punido com 10 jogos de suspensão após ter racicamente agredido o médio dos Rangers, Glen Kamara. É importante destacar que o gesto de cruzar os braços para mostrar um “X” não faz parte do protocolo da UEFA, tendo sido introduzido pela FIFA em 2024 para alertar todos os participantes sobre o motivo da interrupção de um jogo.
A Benfica, por seu lado, defendeu Prestianni, alegando que está a ser alvo de uma “campanha de difamação”. Um árbitro só pode tomar medidas se ouvir o abuso racista alegado, caso contrário, a única opção disponível é o protocolo de três passos adotado em toda a competição. Darren Cann, ex-assistente de árbitro da FIFA e da UEFA, afirmou à BBC Sport que o papel do árbitro é “assegurar ao jogador ofendido que a alegação é levada muito a sério”. “Todos os árbitros são altamente treinados e familiarizados com a abordagem de três passos a seguir, caso tomem conhecimento de quaisquer incidentes racistas”, destacou.
Diante de uma problemática tão complexa e angustiante como o racismo no desporto, o debate sobre a eficácia dos protocolos existentes torna-se imprescindível, e a luta contra o racismo deve continuar a ser uma prioridade inadiável para todos os envolvidos no futebol.
