No coração do futebol europeu, um novo capítulo de indignação e resistência se desenrola, à medida que Vinicius Jr, a estrela do Real Madrid, enfrenta uma luta incessante contra o racismo que assombra o desporto. O jogador brasileiro, que há oito anos brilha nos relvados espanhóis, foi novamente alvo de abusos raciais, agora durante o embate da Liga dos Campeões contra o Benfica, que foi interrompido por dez minutos enquanto ele denunciava a discriminação. Este triste episódio marca a 20ª vez que Vinicius afirma ter sido alvo de abusos raciais.
O renomeado especialista em futebol espanhol, Guillem Balague, estava presente no Estádio da Luz e partilhou a sua análise sobre a situação. “O futebol deveria estar a celebrar uma obra-prima esta noite – Vinicius marcou um golo tão extraordinário que merecia dominar todas as manchetes”, afirmou Balague. “No entanto, mais uma vez, o desporto foi arrastado para o mesmo pântano repugnante do racismo, negações, desculpas e uma falta de entendimento estarrecedora por parte de quem deveria saber melhor.”
As recentes alegações envolvem Gianluca Prestianni, médio argentino do Benfica, que supostamente proferiu insultos raciais a Vinicius logo após o seu gol espetacular. Embora Prestianni tenha negado as acusações, a solidariedade da equipa de Vinicius, especialmente de Kylian Mbappe, é notória. Mbappe revelou à imprensa ter ouvido um termo racista ser utilizado várias vezes, sublinhando a gravidade da situação.
Após o jogo, José Mourinho, treinador do Benfica, fez declarações controversas que levantaram ainda mais polémica. “Estes talentos conseguem fazer coisas bonitas, mas infelizmente não ficou feliz apenas por marcar aquele golo impressionante”, disse ele à Amazon Prime Video Sport. Mourinho insinuou que Vinicius deveria ter celebrado de uma forma mais respeitosa e argumentou que o Benfica não poderia ser um clube racista, uma vez que o seu maior jogador, Eusébio, era negro. Tais comentários não apenas revelam uma falta de sensibilidade, mas também perpetuam um ciclo nocivo de vitimização da vítima.
A narrativa que envolve Vinicius é complexa e revela um dilema persistente: “Sim, insultam-no, mas ele deveria comportar-se melhor.” Este discurso revela uma cultura que não apenas tolera, mas também defende o racismo, enquanto culpa a vítima pela sua reatividade. O comportamento de Vinicius, quando confronta as bancadas, é frequentemente visto como arrogante, mas é uma reação a um ambiente hostil que ele tem enfrentado ao longo da sua carreira.
O sociólogo americano Eduardo Bonilla-Silva descreve esta dinâmica como “racismo sem racistas”, onde as estruturas culturais não insultam diretamente, mas responsabilizam a pessoa afetada pela sua reação. Vinicius, ao tornar-se um símbolo global de resistência contra a discriminação, luta por mudanças nas políticas e ações das autoridades desportivas.
A hostilidade que Vinicius enfrenta é palpável, com um histórico que inclui insultos em estádios por toda a Espanha e testemunhos em tribunal após um boneco negro vestido com a sua camisola ter sido pendurado numa ponte. A luta do jogador não é apenas por si, mas por todos aqueles que sofreram com o racismo no desporto. Através do seu activismo, Vinicius está a pressionar as autoridades para que endureçam os seus protocolos, pois a resposta do futebol ao racismo ainda é insuficiente.
O que está realmente em jogo é a necessidade urgente de uma mudança cultural dentro do desporto, que não pode continuar a ignorar os abusos raciais que ocorrem nas suas próprias arenas. A luta de Vinicius é, portanto, uma batalha não apenas por justiça para si próprio, mas por uma transformação necessária que possa finalmente erradicar o racismo do futebol.
