O que revela a longevidade dos treinadores: Segredos além do plano trienal

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Na noite fria da semana passada, Glasgow foi o palco de um feito notável no mundo do futebol, quando Martin O’Neill, o venerado treinador do Celtic, se juntou a um grupo extremamente restrito de treinadores que alcançaram a impressionante marca de 1.000 jogos profissionais. Este feito não é apenas uma questão de números; representa uma carreira repleta de desafios, vitórias e a capacidade de se adaptar num ambiente onde a pressão é constante e a rotatividade de treinadores é alarmante.

A League Managers Association (LMA) reconhece apenas 40 treinadores que atingiram esta marca, incluindo lendas como Sir Alex Ferguson e Brian Clough. No entanto, o que se nota é que a longevidade no cargo se torna cada vez mais rara. Nos últimos anos, o cenário tem mudado drasticamente, com um número crescente de treinadores a serem despedidos com frequência alarmante. Desde 1 de janeiro de 2013, foram 165 os treinadores que assumiram pela primeira vez um cargo, e uma chocante estatística revela que 56% deles não conseguiram assegurar um novo emprego após essa experiência.

Atualmente, na Inglaterra, a situação é crítica: o tempo médio que um treinador passa à frente de um clube nas quatro principais divisões é de apenas um ano e nove meses. Embora tenha havido uma ligeira melhoria em relação a temporadas anteriores, onde o tempo médio era de um ano e quatro meses, a realidade continua a ser desoladora. Os tempos em que um treinador podia sonhar em construir uma equipe sólida e duradoura parecem ter ficado para trás; agora, o foco é a sobrevivência.

O’Neill, que completa 74 anos neste domingo, não apenas celebrou o seu marco com o Celtic, mas também o fez num clube que é uma verdadeira paixão para ele. Para muitos, como eu, que também atingimos a marca de 1.000 jogos, isto é um testemunho do compromisso e da resiliência necessários para permanecer no jogo. A minha própria jornada atingiu este ponto em 2016, com o West Brom, em um jogo que não poderia ter sido mais simbólico, contra o meu antigo clube, o Stoke.

A história de O’Neill é emblemática de uma era onde os treinadores eram frequentemente promovidos a partir de divisões inferiores, aprendendo o ofício em clubes menores antes de chegarem ao topo. Esta trajetória foi comum entre muitos dos grandes nomes que agora são referência no futebol, como Bill Shankly e Howard Wilkinson, e é uma abordagem que muitos acreditam que deveria ser incentivada novamente.

A minha própria experiência como treinador começou em Bournemouth em 1992. Naquela altura, o futuro era incerto, e a pressão para ter sucesso era palpável. Lembro-me de uma conversa com Alec Stock, um dos membros do clube dos 1.000 jogos, que me aconselhou sobre a importância de um plano trienal. O primeiro ano seria para avaliar os jogadores e a estrutura do clube, o segundo para implementar mudanças e o terceiro para colher os frutos do trabalho duro.

Esses conselhos continuam a ser relevantes, especialmente num cenário onde a rotatividade é a norma e onde a paciência é escassa. O que será necessário para garantir a longevidade dos treinadores no futebol moderno? O’Neill e outros como ele provam que, apesar das dificuldades, há espaço para a permanência e a construção de legados duradouros no desporto.

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