A crise do Tottenham Hotspur atinge um novo auge, com os adeptos a deixarem as bancadas em peso durante a desastrosa derrota em casa contra o Crystal Palace. A equipa está a apenas um ponto da zona de despromoção, numa fase angustiante da época, enquanto o treinador interino Igor Tudor, que substituiu Thomas Frank, regista já a sua terceira derrota consecutiva. A situação levanta uma pergunta inquietante: quem é o verdadeiro culpado pela queda vertiginosa de um clube que há apenas sete anos atingiu a final da Liga dos Campeões?
O dedo acusador aponta frequentemente para Daniel Levy, o ex-presidente que, durante quase 25 anos, foi a figura central nas críticas quando o Tottenham enfrentava dificuldades. Embora tenha sido o arquétipo do impulso por um estádio magnífico, Levy também se tornou o alvo da insatisfação dos adeptos, que o acusam de não ter fornecido os recursos financeiros necessários para que o clube se firmasse na elite da Premier League. Paul Robinson, antigo guarda-redes do Spurs e da seleção inglesa, expressou a sua frustração em declarações à BBC Sport: “Este é um problema que se tem vindo a construir ao longo dos anos. É como circular pelo ralo; por mais tempo que se passe, em algum momento a queda é inevitável.”
Robinson destaca que a gestão de Levy, ao tentar contratar treinadores de mentalidade vencedora como José Mourinho e Antonio Conte, falhou em dotá-los de jogadores com a mesma mentalidade. Desde a saída de Mauricio Pochettino em novembro de 2019, o Tottenham investiu quase 1 mil milhões de libras em contratações, com um gasto líquido de 653 milhões, apenas superado por Chelsea, Manchester United e Arsenal. No entanto, a estratégia de Levy, que muitas vezes se mostrava inflexível nas negociações, resultou em jogadores cruciais a escorregarem para outros clubes, enquanto aqueles que poderiam ter sido vendidos permaneceram por não haver acordos satisfatórios.
Adicionalmente, a estrutura salarial do Tottenham não ajuda. Com um custo de 248,6 milhões de libras na última temporada, o clube ficou aquém dos seus concorrentes diretos, o que levanta questões sobre a sua capacidade de competir em pé de igualdade. Embora Levy possa reivindicar êxitos financeiros fora do campo, os insucessos desportivos são inegáveis. A instabilidade também é uma constante, com 12 treinadores despedidos e uma série de 16 semi-finais e sete finais a demonstrar a falta de consistência e direção.
Uma das questões cruciais que emergem deste cenário é o impacto da saída de Pochettino. O amor dos adeptos pelo argentino é palpável, e muitos ainda sonham com o seu regresso à linha lateral. A final da Liga dos Campeões em 2019, embora um marco histórico, também se revelou um divisor de águas, marcando o início de um declínio acentuado. Pochettino, que acreditava que a derrota deveria ser um trampolim para o sucesso futuro, viu a sua relação com Levy deteriorar-se rapidamente, à medida que os seus apelos por uma reconstrução ambiciosa não foram atendidos.
Robinson reforça esta ideia ao afirmar: “Olhar para aquela final da Liga dos Campeões é doloroso. Tínhamos um treinador que os adeptos adorariam ver de volta agora. Era o momento de apoiá-lo com um contrato a longo prazo e de investir seriamente para permanecer naquele nível. Desde então, o clube tem regredido.” A chegada de Tanguy Ndombele, por 53,8 milhões de libras, foi um dos raros momentos de brilho num verão de contratações que, no entanto, não correspondia à necessidade de uma transformação profunda.
Pochettino chegou a expressar publicamente a sua frustração, dizendo: “Vender, comprar jogadores, assinar contratos, não assinar contratos. Não está nas minhas mãos, mas nas mãos do clube e de Daniel Levy.” O apelo à mudança é evidente, e a pergunta que paira no ar é se o Tottenham conseguirá inverter esta tendência antes que seja tarde demais. O futuro da equipa e de todo o clube poderá depender das decisões que serão tomadas nas próximas semanas. A pressão sobre Levy e Tudor aumenta, e a necessidade de ação é premente. A crise do Tottenham não é apenas uma questão de resultados, mas sim um reflexo de uma estrutura que precisa de uma transformação radical para voltar a brilhar na Premier League.
