A decisão que retirou a Taça das Nações Africanas (CAN) de 2025 ao Senegal está a incendiar o futebol africano. Luís Norton de Matos, antigo avançado internacional português e treinador com forte ligação ao futebol senegalês, não esconde a sua revolta perante o desfecho “raríssimo e inacreditável” que castigou os Leões de Teranga, numa decisão que considera uma verdadeira “farsa” da Confederação Africana de Futebol (CAF), beneficiando descaradamente o país anfitrião, Marrocos.
Norton de Matos, que coordenou os jovens talentos do Étoile Lusitana, atual Teranga Sporting Club, entre 2008 e 2012, revelou numa entrevista explosiva à agência Lusa que o impacto desta decisão vai muito para além do resultado oficial. “O que aconteceu passados dois meses é anedótico. O futebol africano fica afetado”, afirmou com veemência o treinador de 72 anos, deixando claro que a polémica ultrapassa os limites do campo.
Recorde-se que a final da 35.ª edição da CAN, disputada a 18 de janeiro em Rabat, viu o Senegal vencer Marrocos por 1-0, graças ao golo de Pape Gueye no prolongamento. No entanto, a festa foi interrompida dramaticamente no período de compensação do tempo regulamentar, quando o árbitro congolês Jean-Jacques Ndala assinalou um penálti a favor de Marrocos após recurso ao VAR, numa decisão que incendiou os ânimos dos jogadores senegaleses.
A reação da equipa do Senegal foi imediata e polémica: os jogadores retiraram-se temporariamente para os balneários, protestando contra o penálti que Brahim Díaz viria a falhar. Esta atitude, que Luís Norton de Matos classifica como “procedimento errado por indicação do treinador”, violou os artigos 82.º e 84.º do regulamento da CAN, que podem levar à derrota administrativa e eliminação se uma equipa abandonar o campo sem permissão do árbitro.
Apesar da interrupção, a maioria dos jogadores voltou ao relvado, persuadida pelo capitão Sadio Mané e influenciada pelo histórico treinador Claude Le Roy, que se encontrava no estádio. “O Sadio Mané teve uma decisão inteligente, mas muito influenciada por Claude Le Roy, que percebeu o impacto gravíssimo caso a equipa não regressasse”, explicou Norton de Matos, sublinhando a importância do sangue frio em momentos de tensão extrema.
No entanto, a CAF não perdoou a saída temporária do Senegal e, a 17 de março, o Conselho de Apelo puniu a equipa com uma derrota administrativa por 3-0, anulando o triunfo desportivo e entregando o título a Marrocos, que conquistou assim o seu segundo título continental, 49 anos após o primeiro, em 1976.
O treinador português não poupa críticas ao árbitro Jean-Jacques Ndala, referindo que “não teve unhas para tantos casos e fez uma arbitragem de altos e baixos”. Para Norton de Matos, a decisão administrativa que anulou o resultado do campo é uma “sobreposição inaceitável” que mancha a justiça desportiva e leva a questionar a integridade da CAF.
Esta polémica ameaça desestabilizar o futebol africano, colocando em causa a credibilidade das competições continentais e alimentando acusações de corrupção e má-fé. A decisão que mudou o vencedor da CAN 2025 é, sem dúvida, um dos episódios mais controversos da história do futebol africano recente, com repercussões que prometem ecoar por muito tempo.
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