“Namorei com Helen Flanagan e fracassei no Man City – agora ganho milhões com um negócio paralelo”

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Havia quem dissesse que Reece Wabara ia ser o próximo grande lateral direito do Manchester City. Os recrutadores adoravam-no, os adeptos conheciam o seu nome, e o clube mais rico de Inglaterra tinha-o nas suas fileiras como um dos jovens mais promissores da academia. Hoje, aos 32 anos, Wabara não joga futebol profissional. Em vez disso, fatura cerca de 35 milhões de libras por ano com uma marca de moda que tem loja própria na Oxford Street, em Londres. A história de como chegou até aqui é uma das mais fascinantes que o futebol inglês produziu nos últimos anos, feita de complacência admitida sem rodeios, de escolhas corajosas, de romances com estrelas de televisão e de uma reconversão empresarial que ninguém antecipava.

A carreira de Wabara no Manchester City resumiu-se a uma única aparição, no último dia da temporada 2010/11. O que se seguiu foi uma série de empréstimos a Ipswich Town, Oldham Athletic, Blackpool e Doncaster Rovers, antes de o clube o dispensar definitivamente em 2014. O defesa passou ainda por Barnsley, Wigan e Bolton antes de pendurar as chuteiras em 2017, sem nunca ter conseguido corresponder às expectativas que o rodeavam quando ainda era adolescente.

E ele sabe exatamente porquê. A autocrítica de Wabara é brutalmente honesta, sem desculpas nem subterfúgios. “É culpa minha, fui complacente, não me esforcei o suficiente”, afirmou numa entrevista ao CEOCAST em dezembro de 2022, cortando qualquer ilusão de que as circunstâncias foram mais culpadas do que ele próprio. “Até aos 18 anos foi demasiado fácil, depois todos começaram a alcançar-me. Eu era o melhor jogador. És miúdo, não tens essa consciência. Quando é fácil e só percebes que era fácil em retrospetiva, não te esforças ao máximo. Toda a gente me dizia o quão bom eu ia ser, que ia jogar pela Inglaterra, que ia ser o próximo lateral direito do Manchester City. E não fui suficientemente bom e todos me alcançaram. Fiz alguns empréstimos, não correspondi, e sabes que o teu tempo acabou. Agora sou muito paranóico porque basta um ano e estás fora, um grande erro e és expulso do jogo.”

Mas enquanto a carreira futebolística desacelerava, Wabara estava já a construir outra coisa em paralelo. A marca de moda Maniere de Voir nasceu ainda durante os seus anos como jogador profissional, e foi precisamente essa ambição empresarial que acabou por lhe custar a última oportunidade de ficar numa equipa de nível superior. Estava no Wigan, tinha acabado de ser promovido com o clube e integrava o onze do ano da liga, quando a direção o chamou para uma conversa que o marcou para sempre. “Estava a jogar no Wigan, fomos promovidos e eu estava no onze do ano”, relembrou. “Um membro da direção disse que eu tinha sido fantástico, mas que achavam que eu estava a focar-me demasiado no negócio. Percebi que estava a jogar um jogo político, naquele momento, quando comecei a sentir a mudança… pensei comigo mesmo que não podia ter o meu futuro nas mãos de outra pessoa. Tinha o negócio, e aquilo foi a minha forma de tomar posição. Naquele momento pensei: 'sabes o quê, já chega.'”

A decisão de abandonar o futebol não foi tomada na raiva do momento. Foi calculada, racional e, olhando para o que aconteceu depois, visionária. “Decidi parar completamente porque o negócio estava a correr muito bem e o foco é importante”, explicou ao mesmo podcast. “Tinha 25 ou 26 anos e tive de fazer uma escolha: o que é mais sustentável a longo prazo? Onde posso ser o melhor dos melhores? E infelizmente, na altura, poderia ter jogado na Premier League, mas ser futebolista vencedor da Liga dos Campeões ou do Campeonato do Mundo era uma percentagem muito baixa. Tive de fazer a escolha lógica, que foi continuar com o negócio e levá-lo o mais longe possível.”

A lição que tira desse período é uma daquelas que os livros de autoajuda tentam explicar e raramente conseguem: “As pessoas viam-me como alguém vaidoso, pouco dedicado, focado no negócio. Quando lancei a marca de roupa, as pessoas diziam que eu só queria ter uma marca. Não percebiam que tudo aquilo era simplesmente a minha forma de ser enquanto ser humano. Cruzei-me com antigos treinadores e eles dizem que viram isso em mim e que fui mal compreendido. Quando comecei a provar o meu valor já era tarde demais, a reputação já estava criada. Tens de ser excecional desde o início, é muito difícil cair e voltar a subir. É igual no futebol. Não se vê as pessoas de quem se fala como o próximo grande nome caírem e depois tornarem-se efetivamente esse grande nome.”

Não há arrependimento, mas há consciência. No High Performance Podcast, Wabara foi ainda mais direto sobre o que perdeu e sobre o que ganhou com a experiência do fracasso. “Ainda bem que perdi a oportunidade do Manchester City, da seleção inglesa, de ser muito bem cotado. Fui demasiado complacente, é esse o fundo da questão. Trabalhei sempre muito, mas podia ter feito mais. Não é arrependimento porque não estaria aqui se não tivesse passado por isso. Mas se pudesse viver a vida outra vez, estaria a jogar na Liga dos Campeões ou na Premier League agora.” E quando questionado diretamente se teria chegado ao mais alto nível caso tivesse feito escolhas diferentes, a resposta não deixou espaço para interpretações: “Cem por cento, sem a menor sombra de dúvida. Mas não foi assim, e é uma dessas coisas. Ao mesmo tempo, se não tivesse tido esse fracasso ou esse ligeiro arrependimento, não teria conseguido alcançar o que alcancei agora.”

Nas margens desta história futebolística e empresarial surgem também dois nomes que poucos esperavam ver associados a Reece Wabara. Durante os seus anos de formação no Manchester City, o lateral namorou com duas atrizes da famosa telenovela britânica Coronation Street. Helen Flanagan foi a primeira a falar sobre o assunto, nas memórias que publicou com o título Head and Heart: Break-ups, Breakdowns and Being Rosie. “Saí algumas vezes com um jogador do Manchester City chamado Reece Wabara que, e isto é demasiado engraçado, a Brooke Vincent, minha colega no Coronation Street, acabou por namorar depois. Nunca fomos nada de sério e não dormi com ele, mas houve uma noite em que ele me levou à casa onde estava alojado depois de termos saído em Manchester e a furiosa senhoria expulsou-me. 'Você não está a subir as escadas, minha jovem', disse ela. Hilariante!” Flanagan acrescentou ainda: “O Reece era lindo, mas a coisa acabou tão depressa como começou, e acho que ele era um pouco mulherengo. Na verdade, teve uma carreira muito bem-sucedida fora do futebol com a sua marca de roupa Maniere De Voir, que tem uma loja principal na Oxford Street de Londres, por isso percorreu um longo caminho desde que a senhoria o ralhou por trazer raparigas para casa.”

O mesmo Wabara que foi posto à porta por uma senhoria furiosa em Manchester tem hoje uma loja emblemática numa das avenidas comerciais mais famosas do mundo. A Maniere de Voir abriu as suas portas na Oxford Street em 2023 e gera anualmente cerca de 35 milhões de libras. Para um jogador que nunca chegou à Premier League, é provavelmente o título mais valioso que alguma vez conquistou. E desta vez, não houve complacência que lho tirasse.

Este artigo aparece primeiro em Apito Final.

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