A amarga relação entre Ángel Di María e Louis van Gaal no Manchester United revelou-se um dos capítulos mais conturbados da carreira do craque argentino. Em declarações exclusivas à BBC Sport, o campeão do mundo pela Argentina não poupou críticas ao antigo treinador, que terá sido o principal responsável pelo seu desgosto em Old Trafford, chegando mesmo a confessar que chegou a “odiar” o clube durante aquele período negro.
Ángel Di María chegou ao Manchester United em agosto de 2014, num negócio recorde de 59,7 milhões de libras vindo do Real Madrid, com a ambição de ajudar Van Gaal a devolver o título de campeão inglês ao clube. A sua entrada foi fulgurante: marcou três golos e assistiu quatro nos primeiros seis jogos, dando a impressão de que o negócio seria um sucesso garantido. No entanto, a história rapidamente mudou.
O argentino revelou que a relação com Van Gaal azedou quando o treinador começou a focar-se exclusivamente nos aspetos negativos do seu desempenho, ignorando por completo as qualidades que Di María mostrava em campo. “Tudo começou muito bem, tudo fluía. Depois comecei a ter problemas com Van Gaal e a partir daí tudo desmoronou”, explicou o médio ofensivo. Van Gaal, conhecido pelo seu método rígido e pela sua visão táctica estruturada, experimentou Di María em várias posições — nas alas, a “dez” e até a médio — mas não encontrou o papel ideal para ele, o que acabou por gerar tensões.
Por trás das câmaras, as discussões intensificaram-se, agravadas por um episódio traumatizante: uma tentativa de assalto à sua casa em Cheshire, onde estava com a família. A instabilidade fora do relvado e a constante crítica dentro de campo tornaram a vida de Di María insuportável. “A vida ali era muito diferente. Começa a escurecer muito cedo e o frio apareceu. Tudo se acumulava. Quando tudo isto acontece, quando não jogas, quando as coisas não correm bem, quando tens problemas dentro do clube, acaba por afetar-te muito. Cheguei a odiar estar ali”, confessou o craque.
A esposa de Di María, Jorgelina Cardoso, também viveu um período difícil em Manchester. Numa entrevista em 2022, revelou ao Daily Mail que não se sentia segura e detestava o ambiente: “As pessoas são estranhas, andas na rua sem saber se vão tentar matar-te. A comida é horrível. As mulheres parecem porcelana. Em Madrid, tínhamos tudo perfeito — o melhor clube do mundo, comida perfeita, clima perfeito. Depois veio a proposta do United. Eu disse ‘de maneira nenhuma’, mas ele insistiu que seria financeiramente melhor e que tínhamos de ir. Lutámos contra isso, foi horrível. Eu disse-lhe ‘queria matar-me, é de noite às duas da tarde’.”
O racha entre Di María e Van Gaal tornou-se inevitável. Em março, o treinador já começava a deixar o argentino de fora da equipa titular. Lesões menores e uma expulsão na FA Cup contra o Arsenal pioraram ainda mais a situação. Quando a temporada terminou, Di María recusou-se a participar na pré-temporada nos Estados Unidos e exigiu sair do clube. Transferiu-se para o Paris Saint-Germain por 44,3 milhões de libras, pondo fim a um ciclo frustrante.
Louis van Gaal, por sua vez, respondeu às acusações com a sua versão dos factos: garantiu que nunca pediu a contratação de Di María, que foi decisão do clube, e assumiu que, na sua visão, o negócio foi um erro. Defendeu ainda o seu método rígido e explicou que tentou várias posições para o argentino, mas que este nunca conseguiu ser eficaz no papel que lhe foi atribuído.
Este caso é um exemplo claro de como uma má gestão de talentos e conflitos internos podem destruir até mesmo as maiores promessas do futebol. Di María, agora de volta ao seu clube de infância, Rosario Central, segue em frente sem arrependimentos, mas as suas palavras são um alerta para os clubes que apostam alto e não sabem gerir as estrelas. O episódio Van Gaal-Di María ficará para sempre como um dos maiores fiascos do Manchester United na última década, marcado por conflitos pessoais, tensão familiar e uma carreira que poderia ter sido muito diferente.
Este artigo aparece primeiro em Apito Final.
