Espanhóis frustrados por muralha Cabo-Verdiana no arranque do mundial

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Espanha voltou a tropeçar no início do Mundial, deixando adeptos e especialistas perplexos com um empate a zero frente a Cabo Verde, apesar de ter rematado 23 vezes à baliza e de ter dominado por completo o encontro. O seleccionador Luis de la Fuente, visivelmente rouco e de semblante carregado, garantiu que não existem dúvidas sobre o caminho traçado: “Nada nos deixou com dúvidas. Diga-se o que se disser… este é o caminho que devemos seguir”, afirmou após o jogo, tentando transmitir serenidade num balneário que saiu insatisfeito perante a muralha cabo-verdiana.

O encontro decorreu na passada segunda-feira, numa estreia que se adivinhava tranquila para La Roja mas que rapidamente se transformou num teste à paciência e resiliência da equipa. Cabo Verde, com uma disciplina táctica assinalável, cometeu apenas uma falta em 90 minutos e conseguiu resistir ao assédio espanhol, tornando-se um símbolo de organização defensiva e de superação no maior palco do futebol mundial. Apesar do domínio avassalador da posse de bola e das inúmeras oportunidades criadas, a selecção espanhola revelou uma preocupante incapacidade de concretização, alimentando paralelismos com as eliminações frente à Rússia em 2018 e Marrocos em 2022.

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Este empate sem sabor serve de alerta para Espanha, que entra no Mundial como uma das favoritas, mas agora vê-se obrigada a rever estratégias e a recuperar confiança num grupo que, apesar do talento, continua a ser acusado de falta de pragmatismo e eficácia. A incapacidade de transformar domínio em golos reacende velhos fantasmas e coloca pressão acrescida sobre de la Fuente, cuja flexibilidade táctica foi outrora elogiada, mas que agora parece presa a um plano previsível e pouco incisivo. A ausência de soluções no banco, especialmente a tardia aposta em opções como Yeremy Pino, e a utilização questionável de Gavi na esquerda, foram amplamente debatidas na imprensa espanhola.

Luis de la Fuente procurou justificar as suas escolhas táticas, sublinhando: “A ideia com o Gavi era ele recuar para criar profundidade. Pretendíamos que o Cucurella se envolvesse no ataque, e assim aconteceu”, explicou o seleccionador, defendendo-se das críticas após o jogo. No entanto, muitos adeptos e comentadores consideram que a aposta excessiva no lateral do Chelsea foi insuficiente para desbloquear o bloco baixo de Cabo Verde, enquanto jogadores como Oyarzabal, melhor marcador na qualificação, praticamente não entraram em jogo. A estranha situação de Borja Iglesias, impedido de entrar no hotel da selecção por não ser reconhecido, reflecte um certo descontrolo e falta de foco fora das quatro linhas, agravando a sensação de desorganização.

No balneário, a mensagem do grupo tem sido a de manter a calma e acelerar o ritmo de jogo, mas a verdade é que a ausência do adjunto Pablo Amo – que saiu para o Qatar no ano passado e era apontado como um dos arquitectos da consistência táctica – ainda se faz sentir. O próprio de la Fuente pareceu desnorteado perante a falta de soluções, admitindo a necessidade de “insistir na mesma ideia”, mas sem apresentar novidades concretas. Já os adversários, como o seleccionador cabo-verdiano Bubista, mostraram-se plenamente confortáveis a anular as principais armas espanholas, deixando a nu os problemas de criatividade no último terço.

Com a Arábia Saudita pela frente no próximo jogo, Espanha enfrenta agora um verdadeiro teste de fogo. Caso repita a apatia ofensiva e a falta de soluções demonstradas frente a Cabo Verde, o risco de nova desilusão é real e poderá abrir a caixa de Pandora mediática em torno de de la Fuente. O seleccionador terá de encontrar rapidamente alternativas tácticas, apostando em maior verticalidade e ousadia nas decisões, sob pena de hipotecar as aspirações de um grupo que, há apenas umas semanas, era apontado como candidato ao título.

A pressão aumenta e La Roja está, indiscutivelmente, perante um ponto de viragem: ou reage já e mostra que aprendeu com os recentes desaires, ou arrisca-se a sair pela porta pequena de mais um grande torneio. Os próximos dias serão decisivos para perceber se Espanha consegue reinventar-se e voltar a entusiasmar adeptos e críticos, ou se irá sucumbir, mais uma vez, aos próprios fantasmas.

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