Quando Fabio Cannavaro levantou o troféu da Copa do Mundo no Olympiastadion em julho de 2006, parecia que o futebol italiano estava prestes a entrar numa nova era de glórias. A seleção italiana, conhecida como Azzurri, conquistou a vitória de forma dramática sobre uma França repleta de estrelas, incluindo Zinedine Zidane e Thierry Henry, em uma final emocionante que culminou em uma disputa de pênaltis. Entretanto, quase duas décadas depois, esse triunfo se torna um contraste gritante com a situação atual do futebol na Itália.
Após a humilhante eliminação nas qualificações para a Copa do Mundo de 2018 na Rússia e para a Copa do Mundo de 2022 no Catar, a Itália se encontra à beira de se tornar a primeira campeã mundial a perder três torneios consecutivos. Embora a vitória na Eurocopa de 2020, onde a Azzurri derrotou a Inglaterra, ofereça um vislumbre de esperança, esse sucesso parece ser uma exceção em meio a uma série de desilusões.
A campanha de qualificação para a Copa do Mundo deste ano tem sido descrita como “torturante”. Desde o início, a trajetória italiana foi marcada por reviravoltas inesperadas. O técnico Luciano Spalletti foi demitido logo após uma derrota de 3 a 0 para a Noruega em junho, um sinal alarmante das dificuldades que a seleção enfrentaria. Embora tenha dirigido a equipe por mais três dias, incluindo uma vitória sobre Moldova, o seu afastamento já indicava os desafios que se avizinhavam.
Em um movimento surpreendente, Gennaro Gattuso, ex-jogador da seleção e de clubes como AC Milan e Napoli, foi nomeado como o novo técnico. O jornalista de futebol italiano Emmet Gates acredita que Gattuso foi escolhido apenas porque “ninguém mais queria o trabalho”. Em declarações à BBC Sport, Gates afirmou: “Nada na carreira de Gattuso como treinador indica que ele seja um tático de elite. Ele venceu a Coppa Italia com o Napoli, mas comparado ao seu antecessor, ele está a léguas de distância.”
Apesar das dúvidas sobre sua capacidade, Gattuso conseguiu uma recuperação impressionante, levando a Itália a vencer cinco jogos consecutivos de qualificação, incluindo vitórias sobre a Estônia e Israel. Contudo, a alegria foi efêmera, culminando em uma segunda e humilhante derrota de 4 a 1 em casa contra a Noruega, deixando os campeões de 2006 em segundo lugar no Grupo I. Agora, a Itália se vê novamente em uma situação de playoffs, enfrentando a Irlanda do Norte em um semifinal em Bergamo, onde a vitória é essencial para garantir uma vaga na Copa do Mundo deste verão.
A crescente dependência dos clubes da Serie A em relação a talentos estrangeiros está se tornando um tema recorrente no futebol italiano. Na final de 2006, a seleção contava com uma combinação de jogadores icônicos, como Gianluigi Buffon, Cannavaro, Alessandro Del Piero e Francesco Totti, todos formados em um sistema que agora se mostra obsoleto. O sucesso daquela geração foi o resultado de um modelo de desenvolvimento que não existe mais, um modelo que produziu talentos em série.
Na década anterior ao triunfo de 2006, a seleção sub-21, sob a orientação de Cesare Maldini, conquistou três campeonatos europeus consecutivos, criando uma base sólida composta por jogadores que já tinham uma vasta experiência em clubes como Parma, Napoli, Roma e Juventus. No entanto, a mudança significativa na paisagem do futebol europeu veio com a decisão Bosman em 1995, que alterou as regras sobre jogadores não europeus, permitindo uma maior entrada de talentos estrangeiros e, consequentemente, diminuindo as oportunidades para os jogadores locais.
A combinação de uma gestão desastrosa, falta de investimento em talentos locais e uma estrutura de formação deficiente está a colocar a Itália em uma posição precária. O futuro do futebol italiano está em jogo, e a pressão para retornar à elite mundial é maior do que nunca. Cada passo no caminho para a Copa do Mundo é crucial, e os Azzurri precisam urgentemente ressurgir das cinzas de uma era de ouro que agora parece distante.
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