A FIFA está a vender a Taça do Mundo — e Infantino parece não se importar com quem a compra
Há uma imagem que resume bem o estado atual do futebol mundial: o presidente da FIFA, Gianni Infantino, de pé ao lado de Donald Trump, no meio de confetis, na final do Mundial de 2026 em East Rutherford. Essa cena não foi um acaso protocolar. Foi o culminar de três anos em que Infantino transformou a relação entre a FIFA e a órbita de Trump numa das alianças mais escrutinadas do desporto mundial — e agora essa aliança está prestes a ganhar uma dimensão financeira multibilionária.
O que está realmente em cima da mesa
No final de julho de 2026, a FIFA revelou um plano para criar uma nova subsidiária — provisoriamente chamada FIFA Forward Enterprise — que reuniria todas as operações comerciais dos seus principais torneios: direitos de transmissão, patrocínios, bilhética e licenciamento. A FIFA avalia esta nova entidade em cerca de 20 mil milhões de dólares e propõe vender até 20% dela a investidores privados, mantendo os restantes 80% divididos entre a própria FIFA e as 211 federações-membro. Infantino fixou o dia 19 de setembro como prazo para as federações aceitarem a proposta, associando essa decisão a um aumento do financiamento anual que a FIFA distribui a cada membro.
A ideia não nasceu de um processo aberto de consulta, mas de conversas privadas entre Infantino e Joshua Kushner, iniciadas ainda no ano anterior, segundo revelou a Bloomberg. Kushner — irmão de Jared Kushner, genro de Donald Trump e atual enviado especial para a paz — fundou este ano a Thrive Eternal, uma empresa de investimento de capital permanente vocacionada para adquirir participações minoritárias em equipas desportivas e marcas icónicas. É esta empresa que deverá liderar o grupo de investidores da nova entidade da FIFA. O banco J.P. Morgan foi chamado a desenhar o modelo de monetização.
A reação foi imediata e hostil. A UEFA convocou uma reunião de emergência com as suas 55 federações e declarou publicamente que o Mundial “não é da FIFA para vender”. Segundo o Times, se o negócio avançar, o próprio Infantino poderá vir a liderar a nova empresa como comissário depois de terminar o seu mandato na presidência da FIFA em 2031, com um salário que rondaria os patamares pagos ao comissário da NFL — algo próximo dos 64 milhões de dólares anuais.
O escrutínio político em Washington
É neste contexto que entra Jamie Raskin, membro democrata mais graduado (ranking member) da Comissão Judiciária da Câmara dos Representantes. A 27 de julho, Raskin enviou uma carta a Infantino a abrir formalmente uma investigação sobre aquilo que descreve como um possível esquema de troca de favores entre a FIFA e a Administração Trump. O pedido inclui documentação sobre ofertas feitas a Trump, comunicações relacionadas com processos do Departamento de Justiça e registos de visitantes tanto da sede da FIFA em Miami como do escritório que a FIFA mantém na Trump Tower, em Nova Iorque — um espaço que, segundo Raskin, terá um custo anual estimado em 600 mil dólares e que, apesar disso, permanece largamente vazio.
Na sua conta oficial, a bancada democrata da Comissão Judiciária resumiu a situação com uma expressão que ficará certamente colada a este episódio: acusaram Infantino de estar a fazer um “hat-trick” de contrapartidas — depois do prémio da paz atribuído a Trump (concedido em dezembro, meses depois de Trump não ter recebido o Nobel da Paz) e do arrendamento do espaço na Trump Tower, segue-se agora a negociação de milhares de milhões de dólares com a empresa do irmão do genro do presidente.
Vale registar, para equilíbrio, que a revista Time apurou junto de registos públicos que as doações políticas mais recentes de Joshua Kushner foram feitas à Fundação Obama, e que, tecnicamente, Kushner não tem laços políticos formais com a Administração Trump. É uma distinção relevante: a controvérsia não assenta em provas de que Kushner está a agir como agente político do cunhado, mas na perceção de proximidade, no timing das decisões e na opacidade do processo — que é precisamente aquilo que a UEFA e Raskin apontam como o verdadeiro problema.
O padrão saudita repete-se
Este episódio não pode ser lido isoladamente. A FIFA já percorreu um caminho semelhante com a Arábia Saudita antes de lhe entregar o Mundial de 2034. Em 2024, a Aramco tornou-se patrocinadora oficial da FIFA por cerca de 100 milhões de dólares por ano; dias depois, a Arábia Saudita foi confirmada, sem concorrência real, como anfitriã do Mundial de 2034. Em 2025, o fundo soberano saudita (PIF) tornou-se patrocinador oficial do Mundial de 2026 e já tinha financiado indiretamente, através de uma participação na DAZN, os direitos de transmissão do Mundial de Clubes. A FIFA também assinou um memorando com o Fundo Saudita para o Desenvolvimento, disponibilizando mil milhões de dólares em empréstimos para infraestruturas desportivas em países em desenvolvimento.
O desenho é sempre o mesmo: dinheiro entra, opacidade prevalece, e decisões que deveriam passar por um processo democrático dentro da FIFA acabam por ser apresentadas às federações como factos consumados, com prazos apertados e argumentos de “democratização do futebol”.
Uma minoria que pode ser tudo
Os críticos têm razão ao insistir que 20% não é, na prática, uma fatia inofensiva. Se Infantino continuar a concentrar poder de decisão sem supervisão independente — como já demonstrou fazer noutros dossiês, da expansão para 48 equipas às polémicas “pausas de hidratação” que abriram espaço a mais publicidade — uma participação minoritária bem posicionada, nas mãos certas, pode equivaler a uma influência muito maior do que os números sugerem à primeira vista.
A questão não é se Joshua Kushner é ou não um agente político disfarçado. É que a FIFA, organização sem fins lucrativos que gere o património desportivo mais valioso do planeta, continua a tomar decisões de milhares de milhões de dólares em conversas privadas, com pouca transparência e cada vez mais próxima da família de um presidente em exercício — seja ele americano ou, no caso saudita, uma monarquia absoluta. Se o futebol mundial pertence de facto às 211 federações e aos milhões de adeptos que o sustentam, é a eles, e não a fundos de investimento bem relacionados, que caberia decidir o seu futuro.
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