OPINIÃO — A casa ganha sempre: os portugueses apostaram 23 mil milhões de euros no ano passado e os números dizem tudo o que precisa de saber

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Começa sempre da mesma forma. Um bónus de boas-vindas. Uma aposta grátis. Uma notificação no telemóvel a oferecer odds melhoradas para um jogo que já ia ver de qualquer maneira. A publicidade é sofisticada, as aplicações são impecavelmente concebidas e a marca está em todo o lado — nas camisolas dos clubes, nos painéis publicitários dos circuitos, nos intervalos da transmissão do desporto que ligou a televisão para ver.

Aquilo que a publicidade nunca mostra é o fim da história.

Comecemos pela dimensão do que está a acontecer em Portugal, porque os números são verdadeiramente difíceis de assimilar. O volume de apostas online em Portugal ultrapassou os 23 mil milhões de euros em 2025, o que corresponde a uma média de 63 milhões de euros apostados todos os dias por jogadores registados em apostas desportivas e jogos de casino. Desse total, as apostas desportivas à cota representaram cerca de 2 mil milhões de euros — aproximadamente 10% do volume global — enquanto os jogos de fortuna ou azar concentraram cerca de 21 mil milhões de euros.

Vinte e três mil milhões de euros. Num país com cerca de dez milhões de habitantes.

Agora pense no valor que os operadores retiveram. A receita bruta do jogo do setor online regulado em Portugal atingiu os 1.206 milhões de euros em 2025, um crescimento de 8,49% face ao ano anterior — o menor crescimento anual desde que o setor foi regulamentado, há uma década. Só no quarto trimestre, o jogo e as apostas online geraram 337,6 milhões de euros de receita bruta, mais 4,5% do que no mesmo período de 2024, sendo 63,4% provenientes dos jogos de fortuna ou azar e 36,6% das apostas desportivas à cota.

Receita bruta do jogo é, para quem não está familiarizado com a terminologia, um nome surpreendentemente suave para um conceito bastante duro. É a diferença entre tudo aquilo que os jogadores apostaram e tudo aquilo que lhes foi devolvido em prémios. Em português claro: é o dinheiro que a indústria retirou ao público e reteve. Em 2025, esse valor ultrapassou os 1,2 mil milhões de euros.

Importa também dizer que o Estado beneficia significativamente desta atividade. O Imposto Especial de Jogo Online arrecadou 353 milhões de euros em 2025. Trata-se de uma contribuição relevante para as finanças públicas e vale a pena reconhecer que isto cria uma estrutura de incentivos desconfortável. Um Estado que arrecada 353 milhões de euros provenientes de uma determinada atividade passa, queira ou não, a ter um interesse financeiro na continuação do seu crescimento.

E a base de jogadores continua a aumentar. O número total de jogadores registados em Portugal aproxima-se dos 4,9 milhões, distribuídos por 18 entidades licenciadas que operam um total de 32 licenças. Quase cinco milhões de contas registadas num país desta dimensão. Pense por um momento no que isso significa. Pense em quem, estatisticamente, faz parte desse número — colegas de trabalho, vizinhos, amigos, filhos quando atingem a maioridade e, em demasiados casos, até antes disso.

É aqui que entram os aspetos que os orçamentos de marketing mais se esforçam por esconder.

Todos os produtos de apostas existentes no mercado são construídos com uma margem matemática favorável ao operador. As odds são definidas para que, ao longo de um número suficiente de apostas, a casa obtenha lucro. Não se trata de azar, de uma má fase ou de escolher melhor. É esse o modelo de negócio, calculado antecipadamente e aplicado com rigor estatístico. A casa de apostas não está a apostar. Quem está a apostar é o cliente. O operador já calculou o seu retorno antes mesmo de o primeiro euro ser apostado.

Os dados mais recentes tornam essa margem particularmente evidente. No terceiro trimestre de 2025, o volume das apostas desportivas aumentou 4,4% em termos homólogos e 10,3% face ao trimestre anterior, impulsionado por uma redução da margem dos operadores licenciados para 19,8%, quando nos três trimestres anteriores essa margem tinha oscilado entre 22,9% e 25,9%. Vale a pena reler este dado. A margem dos operadores — a parte que retêm de tudo o que é apostado — situava-se entre aproximadamente um quinto e um quarto de todo o dinheiro apostado. Quando essa margem diminuiu, o volume apostado aumentou. A relação dificilmente poderia ser mais evidente.

Importa também abordar uma afirmação que surge frequentemente nas conversas sobre este tema: a de que 98% dos apostadores perdem dinheiro. Não foi possível confirmar esse número específico em qualquer fonte oficial portuguesa e, por isso, não faz sentido reproduzir um valor que não pode ser sustentado. O que não suscita qualquer dúvida, em Portugal ou em qualquer outro mercado regulado, é que sucessivos estudos demonstram que a esmagadora maioria dos apostadores perde dinheiro ao longo do tempo e que uma parte muito significativa das receitas da indústria provém de uma pequena minoria de clientes — precisamente aqueles que apostam mais dinheiro, com maior frequência e, muitas vezes, em situações de maior vulnerabilidade.

É esse o núcleo mais desconfortável de todo este negócio. A rentabilidade da indústria depende, em larga medida, de pessoas que deixaram de se divertir há muito tempo.

O percurso é tristemente familiar para quem já viu alguém próximo passar por ele. Tudo começa de forma aparentemente inocente — alguns euros num jogo de domingo, apenas para tornar uma partida mais interessante. Depois os valores aumentam, porque a mesma aposta deixa de provocar a mesma emoção. Seguem-se as perdas que precisam de ser recuperadas, porque desistir significa aceitar o prejuízo. Depois vêm os empréstimos. Depois o segredo — uma segunda conta, a aplicação apagada, respostas vagas sobre o destino do dinheiro. E, no fim desse caminho, surgem consequências que nunca aparecem em qualquer anúncio: poupanças desaparecidas, dívidas acumuladas, relações destruídas por meses de mentiras e famílias desfeitas por algo que começou apenas como entretenimento.

A maior crueldade da era digital é que o casino passou a viver no bolso de cada um. Nunca fecha. Não exige deslocações, não há uma porta para atravessar nem alguém que veja a sua chegada. Não existe um empregado de bar que perceba que já chega, um croupier que lhe chame a atenção ou uma hora de encerramento que o obrigue a parar. Os depósitos são imediatos. Todos os obstáculos que antes atrasavam uma aposta foram cuidadosamente eliminados através de enorme investimento tecnológico — porque qualquer obstáculo reduz receita e eliminá-lo aumenta o lucro.

Depois existe o mercado ilegal, que é ainda pior sob todos os pontos de vista. O presidente da APAJO afirmou que o mercado ilegal absorve 40% dos jogadores. A promoção de casinos ilegais chega de todas as direções na internet — através de redes sociais como o Instagram e dos seus influenciadores, através de publicidade paga e de sites que recomendam casinos e casas de apostas ilegais como se fossem opções seguras. Se o mercado regulado disponibiliza limites de depósito, mecanismos de autoexclusão e algum nível de supervisão, o mercado não licenciado não oferece praticamente nada — nem proteção, nem mecanismos de recurso, nem qualquer obrigação de pagar eventuais prémios.

Nada disto significa que os adultos devam ser impedidos de apostar. Cada pessoa tem o direito de gastar o seu dinheiro na forma de entretenimento que entender e a história demonstra que a proibição raramente produz bons resultados. O objetivo é apenas olhar para esta realidade com lucidez, num setor concebido precisamente para a reduzir.

Na prática, a recomendação é simples. Se aposta, encare cada euro depositado como dinheiro já gasto — exatamente da mesma forma que encararia um bilhete de cinema ou a conta de um restaurante — porque, estatisticamente, é exatamente isso que representa. Defina um limite antes de começar, nunca depois de estar a perder. Utilize os limites de depósito que os operadores licenciados são obrigados a disponibilizar. Nunca aposte dinheiro de que necessita para outras despesas. E seja absolutamente honesto consigo próprio sobre a razão pela qual está a abrir a aplicação.

Se a resposta for recuperar aquilo que perdeu, então deixou de ser apenas um cliente. Passou a ser o produto.

Existe ajuda disponível em Portugal e pedi-la não representa uma derrota — representa a decisão mais racional que alguém nesta situação pode tomar. A Linha Vida (1414), do SICAD, presta apoio gratuito e confidencial, e falar com um médico ou com alguém de confiança pode ser um primeiro passo legítimo e eficaz. O SRIJ disponibiliza igualmente um registo de autoexclusão que impede o acesso a todos os operadores licenciados, e utilizá-lo não é um sinal de fraqueza. É provavelmente a única aposta em toda esta indústria que oferece verdadeiras probabilidades de sucesso.

A publicidade continuará a dizer-lhe que isto é apenas um jogo. Os 1,2 mil milhões de euros que a indústria reteve no ano passado continuarão a dizer-lhe a verdade.

Apenas um deles está do seu lado.

Se pretender, também posso adaptar este artigo para um estilo mais editorial, ao nível do Financial Times, The Economist ou Público, mantendo exatamente a mesma estrutura e sem alterar qualquer facto.


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