Paulo Fonseca, o treinador português que emergiu como o arquétipo da resiliência e inovação no futebol, tem provado ser o agente de mudança que o Lyon tanto precisava. Desde que chegou ao clube em janeiro de 2025, Fonseca encontrou um plantel fragilizado, tanto em termos financeiros como emocionais, mas rapidamente começou a moldar uma equipa competitiva, que hoje ocupa o terceiro lugar na tabela do campeonato francês, a apenas um passo de garantir a tão desejada vaga na Liga dos Campeões. Um feito que, poucos meses atrás, parecia um sonho distante.
A transformação do Lyon vai muito além de uma simples sequência de vitórias; trata-se de uma revolução na maneira como a equipa compete. A solidez defensiva, uma das melhores da liga, e a qualidade na construção do jogo desde a retaguarda têm sido amplamente elogiadas pela crítica especializada. Um exemplo emblemático foi a jogada brilhante contra o Toulouse, em que o golo resultou de combinações curtas e rápidas, um verdadeiro laboratório em ação. «A intenção é clara: encontrar o homem livre», afirmou Fonseca, encapsulando a essência da sua filosofia de jogo.
No que toca à defesa, a abordagem de Fonseca é igualmente rigorosa. «Todos os jogadores têm de defender, e isso não é negociável», deixou claro. Não existem privilégios: a pressão começa nos avançados, o bloco defende de forma compacta, e a reação à perda de bola é coordenada e intensa. O resultado? Uma equipa que ganhou um novo equilíbrio, uma intensidade admirável e uma maturidade competitiva que a distingue dos demais.
Apesar dos recursos limitados, o treinador português tem demonstrado uma habilidade extraordinária em maximizar o potencial do seu plantel. Os centrais do Lyon emergiram como alguns dos mais fiáveis da liga, o meio-campo adquiriu uma nova inteligência posicional, e o ataque, mesmo sem uma referência ofensiva dominante — com Endrick apenas a chegar por empréstimo do Real Madrid em dezembro de 2025 — tornou-se mais eficaz. A valorização individual dos jogadores tem sido estratégica e notável.
Fonseca não hesita em reconhecer o trabalho vital do departamento de scouting do Lyon. Ele elogia, em particular, Benjamin Charier, a quem considera «provavelmente o melhor olheiro» com quem já trabalhou. O clube tem conseguido reforçar o plantel com jogadores de qualidade, como Pavel Sulc, Ruben Kluivert, Tyler Morton e Afonso Moreira, graças a uma estrutura de scouting que se beneficia das redes internacionais de Mathieu Louis-Jean e Michaël Gerlinger.
O efeito da abordagem de Fonseca no Lyon já se faz sentir fora do campo. O jovem Ruben Kluivert, por exemplo, despertou o interesse do Crystal Palace, que está disposto a fazer uma proposta entre 20 e 30 milhões de euros nas últimas horas do mercado de inverno, um sinal claro da valorização dos seus jogadores.
Essa fase gloriosa do futebol francês não é um acaso, mas sim a continuação de uma trajetória marcada por resiliência. Nascido em Nampula, em 1973, e criado no Barreiro, Fonseca teve uma carreira como defesa-central que, embora discreta, foi marcada por uma leitura de jogo excepcional. Com 111 jogos na Primeira Liga em clubes como Belenenses, Marítimo e Vitória de Guimarães, ele nunca teve a notoriedade de outros, mas sempre se destacou pela sua inteligência tática.
Como treinador, Fonseca construiu a sua carreira de forma metódica. Desde as suas primeiras experiências no Paços de Ferreira, onde alcançou um histórico terceiro lugar e levou o clube à Liga dos Campeões, até passagens por grandes clubes como FC Porto, SC Braga — onde conquistou a Taça de Portugal — e um período de sucesso no Shakhtar Donetsk, onde venceu três campeonatos ucranianos consecutivos.
Após passagens por Roma, Lille e uma breve, mas tumultuada, estadia no Milan, Fonseca reencontrou em Lyon o ambiente ideal para relançar a sua carreira. Mesmo um episódio controverso relacionado com a arbitragem, que resultou numa suspensão prolongada e considerada injusta por muitos, não conseguiu abalar a dinâmica da equipa. Pelo contrário, isso fortaleceu ainda mais a ligação entre treinador e jogadores. Em jogos subsequentes, os atletas demonstraram publicamente essa união, apontando para a bancada onde Fonseca se encontrava após marcarem golos, simbolizando um verdadeiro espírito de equipa.
A jornada de Paulo Fonseca no Lyon é, sem dúvida, uma história de determinação, estratégia e, acima de tudo, transformação. O futuro promete mais emoções e conquistas para este treinador que, com garra e visão, está a escrever um novo capítulo na história do futebol francês.
