No fulgor da revolução tática que Mikel Arteta tem imprimido no Arsenal, é fácil cair na tentação de destacar apenas as estrelas de campo. Bukayo Saka deslumbra na ala direita com a sua genialidade decisiva, enquanto Declan Rice consome quilómetros no meio-campo com uma energia incansável. A sólida muralha defensiva formada por William Saliba e Gabriel Magalhães também parece ser a espinha dorsal do conjunto. Porém, a verdade crua e inquestionável é que o jogador mais crucial no sistema do Arsenal não está no meio-campo nem na defesa. É o guardião da baliza, o número 22: David Raya.
Para compreender o valor insubstituível de Raya, basta analisar o que acontece quando ele não está em campo. As recentes falhas nas competições domésticas deixaram uma marca dolorosa e reveladora. Na final da Taça da Liga contra o Manchester City, o Arsenal parecia completamente desarticulado nas fases de construção. Sem a calma absoluta e a capacidade de passe precisa de Raya, a pressão alta dos Citizens sufocou a defesa arsenalista, que se viu incapaz de sair a jogar com fluidez. O desaire nos quartos-de-final da Taça de Inglaterra, frente ao Southampton, expôs ainda mais a ansiedade defensiva que se instala sempre que Raya não está para atuar como o último recurso e garante a segurança atrás da linha defensiva.
David Raya não é um guarda-redes tradicional. Ele é o maestro recuado, o gatilho tático que dispara os ataques do Arsenal. A sua habilidade para desarmar a primeira linha de pressão adversária com passes milimétricos ou lançar bolas longas de 50 metros que encontram Saka em corrida é a razão pela qual Rice, Saliba e Gabriel jogam com tanta confiança. Sabem que têm um génio tático com os pés atrás, além de um varredor implacável na baliza que lhes permite subir o bloco defensivo e pressionar com intensidade.
No palco europeu, Raya elevou ainda mais o seu estatuto. Na primeira mão dos quartos-de-final da Liga dos Campeões contra o Sporting Clube de Portugal, o guarda-redes espanhol foi absolutamente fenomenal. Conseguiu o prémio de Homem do Jogo após impedir, praticamente sozinho, que a equipa portuguesa dominasse o encontro durante fases de pressão extrema. Com defesas reflexivas de cortar a respiração, Raya não só salvou o Arsenal como continuou a comandar o ritmo do jogo a partir da sua área.
Strikers vendem camisolas e defesas conquistam títulos, mas é um guarda-redes moderno e transformador como David Raya que pode elevar uma equipa boa a uma força imbatível e de elite. Neste Arsenal, o verdadeiro pilar, o jogador insubstituível, não veste luvas por acaso: é o guardião da meta, o cérebro silencioso que dita as regras do jogo desde trás. A ausência dele é a prova definitiva do impacto que tem em toda a equipa e, por isso, o Arsenal deve construir o seu futuro à volta deste verdadeiro âncora inabalável.
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