Tottenham vive um momento crítico e decisivo após escapar à descida de forma dramática na última jornada da Premier League. Roberto De Zerbi, o treinador italiano que assumiu o comando na reta final da época, não perdeu tempo e lançou um aviso claro e contundente à direção: o clube precisa de uma revolução profunda, mas sem mudanças radicais no plantel. “A partir de hoje temos de começar a organizar e construir uma nova equipa. Não acho que seja necessário mudar demasiados jogadores. Temos 10, 11, 12 jogadores suficientemente bons para ficar. Bons jogadores, especialmente boas pessoas. Depois, temos de completar o plantel com jogadores de topo”, afirmou De Zerbi sem rodeios.
O técnico não esconde a frustração pela forma como o clube foi gerido até aqui, especialmente numa altura em que a descida parecia inevitável. O Tottenham terminou a temporada com um impressionante registo de 11 pontos nos últimos seis jogos, um sinal claro de que a equipa pode e deve mirar mais alto na próxima época. No entanto, essa ambição só se concretizará se a estrutura do clube estiver alinhada e cumprir as promessas feitas a De Zerbi, algo que o treinador sabe que, historicamente, o Tottenham raramente consegue.
O fantasma do “Nunca Mais” paira sobre o clube, uma expressão usada para descrever o cenário quase catastrófico de despromoção que foi evitado por muito pouco. Este alerta já tinha sido ignorado no verão passado, o que custou o lugar a um treinador vencedor de troféus. Se a equipa quiser evitar mais miséria, mudanças radicais são indispensáveis.
No topo da pirâmide, a situação é delicada. A propriedade do clube, liderada por Vinai Venkatesham e pela família ENIC, está longe de inspirar confiança. O Tottenham, outrora lucrativo, afunda-se agora em prejuízos e dívidas crescentes. A chegada de Vinai não trouxe as melhorias esperadas e a sua ligação ao Arsenal só aumenta a desconfiança dos adeptos, que já perderam a paciência com decisões desastrosas, como a contratação de Igor Tudor e a demora na saída de Thomas Frank.
A insatisfação dos fãs é clara: querem Vinai e a ENIC fora do clube, mas sabem que esta não será uma batalha fácil nem a curto prazo. Até lá, o Tottenham tem de encontrar estabilidade, e essa pode começar na estrutura desportiva. Johan Lange, diretor desportivo, é um dos principais alvos das críticas. Desde a sua chegada, o clube desceu da liderança da Premier League para um estado caótico, com quase nenhuma contratação a destacar-se positivamente. A sua insistência em não “entrar em pânico” durante a janela de janeiro foi vista como um erro grave, pois o clube precisava precisamente de uma reação urgente. Lange tem de sair, e o nome de Sebastian Kehl, ex-diretor desportivo do Borussia Dortmund, surge como o substituto ideal. Kehl conhece o que é gerir um clube grande com ambições e pode ser a chave para o renascimento dos Spurs.
O departamento médico, outra pedra no sapato do Tottenham, está a ser alvo de uma revisão profunda. Após temporadas marcadas por lesões inexplicáveis e má gestão clínica, o clube não pode continuar a acumular baixas de jogadores-chave como Kulusevski, Maddison e Kudus. As condições do relvado do novo estádio também são questionadas, mas o verdadeiro problema parece estar na forma como as lesões são tratadas e geridas.
No plano desportivo, a reconstrução do plantel será intensa. De Zerbi revelou que apenas cerca de uma dúzia de jogadores pertencem ao projeto futuro, o que significa que muitas saídas são esperadas. Entre os que devem abandonar o clube estão nomes como Cristian Romero, cuja liderança foi posta em causa devido a lesões e comportamento, e Richarlison, que apesar de ter marcado 11 golos, não parece fazer parte dos planos do treinador. Também a situação de Randal Kolo Muani, cujo empréstimo dificilmente será convertido em transferência definitiva, e do guarda-redes Guglielmo Vicario, que deverá regressar a Itália, está praticamente definida.
Por outro lado, jogadores como Micky van de Ven, Pedro Porro e Conor Gallagher parecem ser as apostas para o futuro imediato, com Van de Ven a ser o principal candidato a novo capitão, substituindo Romero. Jogadores emprestados como Luka Vuskovic e Mikey Moore também terão oportunidade de se mostrar na pré-temporada, numa luta por lugares que promete ser feroz.
Quanto aos reforços, De Zerbi quer jogadores de “primeiro nível” e o mais cedo possível para a pré-temporada, apesar das complicações do calendário devido ao Mundial. O clube pretende reforçar especialmente o ataque, onde a falta de criatividade e golos foi evidente durante a época. A possível permanência de Maddison, Kulusevski e Kudus, quando recuperados, pode trazer nova vida ao setor ofensivo. Além disso, nomes como Andy Robertson são alvos para acrescentar experiência e liderança, enquanto Marcos Senesi pode ser uma contratação rápida e eficaz para a defesa.
A posição de guarda-redes também está em aberto, com a necessidade de um concorrente sólido para Antonin Kinsky, e James Trafford surge como hipótese, embora com reservas quanto à sua titularidade imediata.
Por fim, o treinador deixa claro que o Tottenham precisa de uma revolução, mas ponderada, focada em construir uma equipa forte e coesa que recupere o prestígio perdido. A próxima época será decisiva para perceber se esta “revolução De Zerbi” é apenas um sonho ou o início de uma nova era para os Spurs.
A verdade é que o Tottenham está num ponto de viragem crítico: o clube tem de agir rápido, com decisões claras, e sobretudo com coragem, para evitar que os fantasmas do passado voltem a assombrar a equipa e os seus adeptos. O verão promete ser quente em Londres, e a revolução no Tottenham pode ser o maior espetáculo fora do relvado da Premier League.
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