O mundo do futebol está em sobressalto: os Estados Unidos, anfitriões do Mundial 2026, chegam ao arranque da competição com mais dúvidas do que certezas e uma pressão nunca antes sentida. Depois de terem falhado a qualificação para o Mundial 2018, a selecção norte-americana viu-se obrigada a reconstruir-se das cinzas — e agora enfrenta a expectativa de fazer história em casa, perante milhões de adeptos e críticos.
Tudo começou há oito anos, quando, num centro de exposições em Moscovo, a FIFA anunciou que o campeonato do mundo de 2026 seria disputado nos Estados Unidos, México e Canadá. O anúncio, feito por Gianni Infantino perante um Vladimir Putin atento, significou uma entrada directa na competição para os anfitriões, poupando-lhes o desgaste do apuramento. No entanto, a tarefa mais árdua estava apenas a começar: reerguer uma equipa destruída e garantir que o falhanço de 2018 não se repetia em 2022, no Qatar.

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Na próxima sexta-feira, no SoFi Stadium em Inglewood, Califórnia, os norte-americanos inauguram a sua caminhada frente ao Paraguai. No banco estará Mauricio Pochettino, técnico argentino com largo currículo europeu, contratado em Outubro de 2024 para dar nova vida ao projecto. O plantel, recheado de jogadores a actuar nas principais ligas europeias, simboliza, segundo os responsáveis, uma geração capaz de acelerar o crescimento do futebol nos EUA, iniciado com o Mundial 1994 e consolidado com a criação da Major League Soccer.
Pochettino não esconde a ambição: “A nossa mentalidade é ganhar — competir e ganhar. Competir, competir, competir”, afirmou o treinador, frisando que “o desafio foi unificar e colocar tudo na mesma linha”. O antigo técnico do Tottenham Hotspur e do Paris Saint-Germain sublinha a qualidade atlética do grupo, mas reconhece que só a unidade permitirá sonhar com voos altos.
O ambiente interno parece, de facto, transformado. Contudo, pairam cinco questões decisivas sobre a selecção dos EUA antes do pontapé de saída. Desde logo: até onde terá de ir a equipa para que o Mundial seja considerado um sucesso? Pochettino transmitiu aos seus jogadores que podem alcançar feitos grandiosos. “Representamos um país que quer sempre ser o melhor, quer ser número 1. Porque não nós?”, desafiou.
A realidade, porém, é dura: dificilmente a taça será levantada por um capitão norte-americano. O favoritismo recai sobre França, Espanha, Brasil e outros colossos mundiais. Chegar aos quartos-de-final — algo que não acontece desde 2002 — já seria um feito histórico, ainda para mais com o plantel mais talentoso de sempre, em teoria, se olharmos para os clubes que representam.
Para tal, será preciso ultrapassar o recém-criado “Round of 32” e depois, provavelmente, surpreender um dos gigantes. Desde 1930, os EUA nunca protagonizaram uma surpresa nos oitavos ou quartos-de-final, tendo apenas nove vitórias em fases finais — duas delas quase centenárias. Nova eliminação nos oitavos seria vista como desilusão; não passar da fase de grupos seria um desastre absoluto.
Christian Pulisic, estrela do AC Milan, recusa estabelecer metas rígidas: “Não há razão para apontar um alvo específico para o sucesso neste Mundial. É jogo a jogo, ninguém fica feliz quando sai da competição. Depois, decidiremos como nos sentimos sobre o que fizemos”, explicou o avançado.
O sorteio colocou os EUA no Grupo D, sem tubarões mas sem equipas fáceis: Paraguai, Austrália e Turquia. Qualquer posição, do primeiro ao último lugar, está em aberto. O jogo inaugural será determinante, já que a segunda jornada, frente à Austrália em Seattle, parece mais favorável. A fechar, novo regresso ao SoFi Stadium para defrontar a Turquia, teoricamente a formação mais forte do grupo apesar de ter precisado de “playoff”.
Os americanos testaram-se recentemente frente a todos os adversários do grupo, vencendo Paraguai e Austrália, mas caindo perante a Turquia. O objectivo é claro: terminar em primeiro e garantir um confronto teoricamente mais acessível nos oitavos. Segundo lugar pode implicar cruzar-se com o Irão, enquanto um apuramento em terceiro poderá ditar duelo com Inglaterra, Holanda ou Portugal.
A constituição do onze inicial é ainda um segredo, mas tudo aponta para Matt Freese na baliza; Antonee Robinson e Sergiño Dest nas alas; Tim Ream e Alex Freeman no eixo defensivo; Tyler Adams e Malik Tillman no meio-campo; Pulisic, Weston McKennie e Folarin Balogun no ataque. A dúvida reside no estado físico de Chris Richards, central que recupera de lesão no tornozelo. Se estiver apto, será titular; caso contrário, Mark McKenzie, Miles Robinson ou Auston Trusty podem entrar nas contas.
A experiência aumentou consideravelmente — metade do plantel repete presença em Mundiais, algo raro para os EUA. “Os jogadores têm agora muito mais experiência a nível de clubes”, sublinha Pulisic, recordando ainda as lições aprendidas com a derrota frente à Holanda em 2022: “Tudo isto ajuda a crescer e a aprender. A maioria vai entrar neste Mundial mais relaxada, pronta para os grandes momentos.”
No entanto, subsistem sérias dúvidas sobre a defesa, especialmente se Richards estiver indisponível. Os últimos amigáveis foram preocupantes: cinco golos sofridos frente à Bélgica, dois na derrota com Portugal, dois mesmo na vitória sobre o Senegal e mais dois com a Alemanha, incluindo um lance de bola parada logo nos minutos iniciais. Tim Ream, central titular, não esconde a frustração: “Obviamente que não estamos satisfeitos com os golos sofridos. É algo que todos olham, incluindo eu. Vamos analisar e garantir que tudo fica mais sólido.”
Desde o verão passado, os EUA só conseguiram uma baliza inviolada em 14 jogos – frente ao Japão. Se a defesa resistir, há esperança de chegar longe. Caso contrário, corre-se o risco de mais uma oportunidade desperdiçada para afirmar o futebol norte-americano entre a elite mundial.
O arranque do Mundial será assim o verdadeiro teste à ambição e maturidade desta geração. Uma prestação sólida pode catapultar o futebol nos Estados Unidos para outro patamar; um deslize precoce será visto, sem contemplações, como um fracasso retumbante. O mundo está atento — e os americanos sabem que não há margem para erros.
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