Mauricio Pochettino transformou a selecção dos Estados Unidos numa verdadeira máquina de acreditar, rompendo com décadas de descrença e colocando o “sonho impossível” do Mundial à distância de um grito de golo. O seleccionador argentino, célebre pelo seu pragmatismo táctico e paixão contagiante, orquestrou duas vitórias categóricas logo no arranque da competição, garantindo o primeiro lugar do Grupo D antes sequer de disputar o último encontro, frente à Turquia, esta quinta-feira, no emblemático SoFi Stadium. Com o apuramento já no bolso e a moral em alta, os norte-americanos posicionam-se como uma das grandes surpresas deste Mundial, prontos para enfrentar um adversário teoricamente mais acessível nos oitavos-de-final, agendados para 1 de Julho em Santa Clara, Califórnia.
O trabalho de Pochettino é tanto mais notável por ter revolucionado um grupo que há apenas 20 meses parecia à deriva. O treinador de 54 anos, que se instalou num ambiente de quase retiro à beira-Pacífico, descreve o processo com orgulho: “O talento trouxe-nos até aqui, mas é o coração, o esforço e a união que nos vão tornar inesquecíveis”, afirmou, rodeado dos seus rituais pouco ortodoxos – dos limões que acredita absorverem energias negativas à parede forrada de frases motivacionais escritas por si. Entre elas, destaca-se o lema que se tornou mantra da equipa: “Why Not U.S.”, um trocadilho desafiante que passou de piada a profecia.

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O impacto desta metamorfose sente-se não só nos resultados, mas sobretudo na atitude demonstrada em campo. Contra todas as expectativas, os Estados Unidos apresentam um futebol vibrante, misto de agressividade sul-americana e disciplina europeia, longe da imagem cinzenta dos últimos anos. Pochettino não esconde o percurso árduo até aqui, recordando que o ponto de viragem foi a humilhante prestação na Liga das Nações da CONCACAF em Março de 2025, onde a equipa ficou no último lugar das quatro apuradas. “Era necessário bater no fundo”, confessou, sublinhando que esse fracasso foi planeado: “Recebemos um murro no estômago, mas era preciso. Foi um bom choque.”
Seguiu-se uma reconstrução total, apostando em juventude e redefinindo prioridades na Gold Cup de verão. A partir daí, a equipa embalou numa série invicta contra adversários de peso, todos eles presentes no Mundial. “Desafiámos pessoas, desafiámos a organização, desafiámos jogadores, desafiámos todos”, resumiu Pochettino, insistindo que o que agora se vê não é acaso, mas fruto de um plano meticulosamente executado.
Tim Weah, extremo da selecção, reconhece a importância da mentalidade trazida pelo técnico: “O Pochettino trouxe aquela garra sul-americana. Quando olhamos para equipas como a Argentina, o Brasil ou a Colômbia, vemos que têm sempre esse extra por causa da mentalidade, nunca desistem. Acho que nunca tivemos isso antes”, admitiu, elogiando a transformação dos Estados Unidos numa equipa verdadeiramente resiliente.
A crença tornou-se, aliás, o combustível deste colectivo. Em Novembro, Pochettino evocou os exemplos da Coreia do Sul em 2002 e de Marrocos em 2022, semifinalistas inesperados, para desafiar os seus homens: “Porque não nós?”, perguntou, aglutinando o grupo em torno de um objectivo que já ninguém considera irrealista.
Nem mesmo as derrotas pesadas frente à Bélgica e Portugal abalaram a convicção do seleccionador. “Começámos a ver progresso”, garantiu, salientando que a estreia vitoriosa no Mundial, precisamente no mesmo estádio onde meses antes tinham sido humilhados, simbolizou o renascimento da equipa. “Não reconheci o estádio porque antes estava vazio”, brincou, aludindo ao ambiente desolador da Liga das Nações, contrastando com as bancadas cheias de adeptos americanos vibrantes nos jogos recentes.
Apesar de não residir nos Estados Unidos, Pochettino revelou ter desenvolvido uma ligação especial ao país e à sua cultura desportiva. “Se os americanos começarem a mostrar a mesma paixão pelo futebol, porque não fazer parte de algo que pode criar um legado?”, questionou, mostrando-se aberto a prolongar a sua estadia após o Mundial, apesar do interesse expectável de clubes europeus de topo.
O futuro imediato reserva novos desafios: com o apuramento já assegurado, Pochettino poderá rodar jogadores frente à Turquia, preparando a equipa para os oitavos-de-final e alimentando o sonho de ir ainda mais longe. A ligação criada entre equipa e adeptos, cimentada por cânticos partilhados e uma atitude de família, poderá ser o verdadeiro trunfo de uma selecção que já provou estar pronta para reescrever a sua história. Afinal, porque não os Estados Unidos? Sob o comando de Pochettino, tudo parece possível, e o país começa finalmente a acreditar.
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