Maradona e o ‘mão de deus’ voltam a assombrar Inglaterra no méxico

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Caos, polémica e uma aura quase sobrenatural parecem perseguir a selecção inglesa sempre que pisa solo mexicano num Campeonato do Mundo. Agora, em pleno regresso à Cidade do México para mais um confronto de alto risco, paira no ar a sensação de que a história se poderá repetir — com novos dramas e velhas maldições a pairar sobre os Três Leões.

Poucas horas depois de aterrarem na capital mexicana, ainda a adaptar-se às exigências da altitude, a comitiva inglesa foi surpreendida por movimentações nos bastidores da FIFA. O aguardado jogo dos oitavos-de-final no mítico Estádio Azteca, marcado para domingo às 18h locais, esteve prestes a ser antecipado devido a previsões de tempestades. As possíveis alterações teriam ainda impacto noutros jogos, como o Brasil-Noruega em Nova Jérsia, que poderia ver o seu início adiado. Depois de horas de incerteza e especulação, foi decidido manter tudo como previsto, deixando adeptos e autoridades em Inglaterra a respirar de alívio e a preparar-se para uma noite longa e emocional.

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A ligação da selecção inglesa ao México é marcada por episódios insólitos, desaires históricos e um misticismo que transcende o futebol. Em duas passagens anteriores por Mundiais em solo mexicano — 1970 e 1986 — Inglaterra viveu momentos dramáticos que moldaram o imaginário do futebol mundial. Em 1970, enquanto campeã em título, a selecção britânica foi abalada antes do apito inicial: Bobby Moore, capitão e herói do Mundial anterior, foi detido em Bogotá, acusado de roubo de uma pulseira. Embora posteriormente ilibado, o episódio lançou uma sombra sobre os preparativos. Já em solo mexicano, Inglaterra conseguiu uma vitória suada frente à Roménia, caiu perante o Brasil de Pelé e, apesar de garantir o apuramento, sucumbiu de forma trágica nos quartos-de-final frente à Alemanha Ocidental, numa reedição da final de 1966. Com uma vantagem de 2-0 a meio da segunda parte, tudo parecia controlado, mas a ausência forçada do lendário guarda-redes Gordon Banks (vítima de intoxicação alimentar) revelou-se fatal. Peter Bonetti, seu substituto, não esteve à altura e permitiu a reviravolta germânica, selada no prolongamento por Gerd Müller.

Se 1970 ficou marcado pelo colapso e pelo azar, 1986 ficou para sempre gravado na memória colectiva como o Mundial do “Mão de Deus”. Após um arranque desastroso — derrota com Portugal e empate sem golos frente a Marrocos — Inglaterra parecia condenada à eliminação precoce. No entanto, Gary Lineker salvou a equipa com um hat-trick frente à Polónia e, depois, ajudou a despachar o Paraguai. O momento fatídico chegaria nos quartos-de-final diante da Argentina. Diego Maradona, génio e vilão, assinou dois dos golos mais icónicos da história do futebol: primeiro, com a célebre mão que enganou Peter Shilton e os árbitros, depois, com um slalom monumental desde o meio-campo, deixando meia Inglaterra pelo caminho. Depois do encontro, Maradona explicou: “Foi um pouco com a cabeça de Maradona e outro pouco com a mão de Deus”, frase que ressoou como martelo nas hostes britânicas. O seleccionador Bobby Robson não escondeu a revolta, afirmando: “Fomos roubados. O mundo inteiro viu o que aconteceu.” Lineker ainda reduziu, mas a Argentina manteve-se firme e seguiu para a glória.

O Estádio Azteca, palco destes pesadelos ingleses, tem estatuto de quase inexpugnável: o México só perdeu dois dos 89 jogos oficiais ali disputados, vencendo 70 e empatando 17. Inglaterra soma, no total, quatro vitórias, um empate e quatro derrotas em nove jogos do Mundial realizados em solo mexicano, um registo mediano para um peso-pesado europeu.

O regresso a este cenário de tantas memórias amargas levanta dúvidas sobre a capacidade da Inglaterra para exorcizar os seus fantasmas e finalmente triunfar em território mexicano. A pressão é máxima: um deslize pode significar novo trauma e alimentar a lenda negra que parece acompanhar a selecção sempre que aterra no México. Para Gareth Southgate e os seus jogadores, o desafio é claro — quebrar o ciclo de azares e transformar o Azteca de palco maldito em símbolo de redenção.

Com o historial de polémicas, decisões duvidosas e azares que parecem atingir sempre os ingleses em Mundiais no México, adeptos e especialistas aguardam com expectativa (e algum receio) o desfecho do próximo embate. Conseguirá Inglaterra finalmente impor-se no palco das suas maiores desilusões ou será mais uma vez vítima do destino e das forças ocultas que, diz-se, pairam sobre o Azteca? Para já, só uma coisa é certa: o mundo estará de olhos postos neste reencontro de velhos fantasmas e novas esperanças.

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