Arthur Fery garantiu uma das vitórias mais polémicas e suadas de Wimbledon ao ultrapassar Zizou Bergs num duelo épico de cinco sets, mas o britânico viu-se envolto em polémica pela sua atitude em campo, deixando o adversário belga à beira de um ataque de nervos. Mais do que a impressionante recuperação e o triunfo por 2-6, 7-5, 2-6, 7-6, 7-6 após quatro horas e 38 minutos de pura intensidade, foi o comportamento do jovem wildcard britânico nos momentos decisivos que incendiou as bancadas e gerou indignação dentro do próprio circuito.
O encontro decorreu no Court 18, perante uma plateia ruidosa que não deixou de apoiar o último sobrevivente britânico na prova masculina, mas a tensão atingiu o auge no quinto set. Com Fery a liderar o tie-break por 7-2, Bergs não escondeu a frustração: acusou Fery de falta de fair play por não pedir desculpa sempre que a bola tocava na fita da rede antes de cair do lado do belga, celebrando exuberantemente cada ponto conquistado dessa forma. De imediato, Bergs dirigiu-se ao juiz de cadeira, visivelmente irritado: “Ele continua a bater na rede e a gritar logo de seguida ‘yeah’. É inacreditável. Zero fair play. Quantas vezes ele acerta na rede e nunca pede desculpa?”, reclamou o belga, na presença do árbitro, em pleno tie-break do set decisivo.

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A irritação de Bergs não se ficou por aqui. Fery sofreu três hemorragias nasais durante o encontro, obrigando a múltiplas paragens para assistência médica – algo que, apesar de regulamentar, contribuiu para aumentar a frustração do belga, que voltou a queixar-se ao árbitro perante as constantes interrupções. “Torna-se impossível manter o ritmo e a concentração. O adversário está sempre a ser assistido e o tempo de jogo vai-se acumulando”, lamentou Bergs após mais uma pausa forçada, já no quarto set. O árbitro, limitado pelos regulamentos, explicou que a assistência é obrigatória nestes casos, mas as interrupções acabaram por marcar o desenrolar da partida.
Este “teatro” de Fery, como alguns já apelidam nas redes sociais, não é caso único. Já na primeira ronda, frente a Damir Dzumhur, o britânico protagonizou outro momento insólito: quando o bósnio se insurgiu junto do árbitro, alegando que um serviço teria tocado na fita e devia ter sido repetido (“let”), Fery simplesmente colocou os auscultadores para ignorar a discussão. Dzumhur, incrédulo, atirou: “Foi let. Jogaste o ponto, não paraste, huh? Ganhaste o ponto. Só sê honesto. Não me interessa o que ele [o árbitro] diz.” E, num acesso de fúria, disparou ainda contra o juiz de cadeira: “Não viste o let? Não ouviste o let? És assim tão mau que não consegues ouvir, e toda a gente ouviu? Cometeste o erro. Ele [Fery] parou.”
Apesar das polémicas, Fery continua imparável e já garantiu lugar nos oitavos-de-final, tornando-se apenas o segundo wildcard britânico a consegui-lo em Wimbledon desde Andrew Foster em 1993. Aos 23 anos, prepara-se também para entrar no top 100 mundial, prevendo-se que suba ao 91.º lugar do ranking ATP, o melhor da carreira. O seu percurso até aqui tem sido sempre marcado por recuperações épicas – em todos os três jogos perdeu o primeiro set, mas conseguiu sempre dar a volta, mostrando resistência e frieza incomuns para um estreante nestas andanças.
No entanto, as suas atitudes em campo dividem opiniões e levantam dúvidas sobre o seu comportamento desportivo. Se, por um lado, Fery aproveita o apoio massivo do público e não deixa que problemas físicos, como as hemorragias nasais recorrentes, o impeçam de lutar até ao fim, por outro, a sua recusa sistemática em pedir desculpa após bolas de sorte e a forma como reage à adversidade começam a criar-lhe uma reputação de jogador controverso. Estas situações podem colocar pressão extra nos próximos encontros e condicionar a forma como será recebido tanto por adversários como pelo próprio público fora de solo britânico.
O próximo desafio é de altíssimo risco: Fery enfrentará o vencedor do duelo entre Matteo Berrettini e Grigor Dimitrov, ambos jogadores de topo e habituados a grandes palcos. Será uma estreia absoluta frente a qualquer um deles e, perante a atmosfera fervorosa de Wimbledon, o britânico terá de saber gerir não só o seu ténis, mas também o comportamento em court, sob o olhar atento da crítica internacional. O que se segue poderá determinar se Fery é apenas uma sensação passageira alimentada pelo apoio caseiro, ou se conseguirá afirmar-se como uma verdadeira ameaça no circuito – mas para isso, terá de provar que consegue conjugar talento com respeito pelas regras e pelos adversários.
A polémica está instalada e promete aquecer ainda mais o ambiente em Wimbledon. Arthur Fery terá de decidir se quer ser recordado apenas pelos resultados ou também pela postura. Uma coisa é certa: ninguém ficará indiferente ao próximo capítulo desta história.
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