Marrocos chega aos 34 jogos sem perder e afirma-se candidato ao Mundial

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Trinta e quatro jogos consecutivos sem conhecer o sabor da derrota: a selecção de Marrocos está a transformar o Mundial numa autêntica epopeia de superação e pragmatismo. Depois de bater o Canadá por expressivos 3-0 nos oitavos-de-final, em Houston, os Leões do Atlas continuam a desafiar as probabilidades, mostrando que sabem vencer mesmo quando o futebol praticado está longe de ser vistoso. O triunfo frente aos canadianos foi contundente, mas ficou marcado por um dado insólito: Marrocos tornou-se a primeira selecção a ganhar um jogo a eliminar num Mundial com apenas cinco remates – o valor mais baixo de sempre. E, para sublinhar ainda mais o carácter insólito do encontro, a primeira parte teve mais cartões amarelos do que remates à baliza, uma estreia absoluta na história da competição.

A vitória marroquina em Houston, frente a uma das selecções anfitriãs do Mundial 2026, garantiu à equipa de Mohamed Ouahbi a presença nos quartos-de-final, igualando assim a proeza já alcançada no Qatar em 2022, onde Marrocos foi a primeira nação africana a atingir as meias-finais. O domínio marroquino começou a desenhar-se após um início mais titubeante, com o guarda-redes Bono a negar o golo a Jonathan David e Tani Oluwaseyi. Durante os primeiros quinze minutos, Marrocos nem sequer entrou na grande área adversária, repetindo um arranque tímido já registado no encontro anterior. Contudo, a partir do momento em que assentaram o jogo, os africanos tomaram conta das operações.

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O seleccionador canadiano, Jesse Marsch, reconheceu a resiliência dos adversários no final da partida: “Eles estavam a ceder um pouco, mas não quebraram”. A ausência de Alphonso Davies, a estrela maior do Canadá, sentiu-se no relvado, com Stephen Eustaquio anulado e Jonathan David completamente apagado do jogo. Em contrapartida, o capitão marroquino Achraf Hakimi foi um autêntico pesadelo para os canadianos, impondo-se tanto na defesa como no ataque. Brahim Diaz, cérebro e maestro do meio-campo, assinou duas assistências, elevando para quatro o seu registo em fases finais de Mundiais – um recorde absoluto para jogadores africanos.

No final do encontro, Mohamed Ouahbi, seleccionador de Marrocos, sublinhou o espírito de sacrifício e a identidade da equipa: “A primeira parte foi muito intensa. Houve alguns ajustes a fazer ao intervalo. Nunca estivemos a salvo da pressão. O que importa é que não mudámos a nossa identidade, não mudámos a nossa filosofia de jogo. Havia muitas ideias a circular e aproveitámos a melhor. Estamos a jogar o Mundial, o que significa que haverá momentos difíceis. O que interessa é que, mesmo quando não estamos ao nosso melhor nível, temos de ser resilientes. Temos de nos lembrar para quem jogamos e porque jogamos”, afirmou, mostrando confiança na caminhada da equipa.

A consistência marroquina é impressionante: desde a derrota por 1-0 frente ao Quénia, em Agosto de 2025, numa competição reservada apenas a jogadores que actuam nos campeonatos africanos, Marrocos não sabe o que é perder. É certo que a série invicta de 34 jogos tem uma nota de rodapé – inclui a vitória administrativa frente ao Senegal na final da Taça das Nações Africanas 2026, ainda contestada nos tribunais –, mas nada retira mérito ao percurso dos Leões do Atlas.

O impacto desta campanha vai muito além dos números. Marrocos já igualou o total de vitórias em jogos a eliminar de todas as outras selecções africanas juntas: quatro triunfos, dois em 2022 e dois nesta edição. O estatuto de candidato ao título mundial já não pode ser ignorado, mesmo que alguns críticos defendam que a equipa ainda não foi verdadeiramente testada ao limite. O empate frente ao Brasil no jogo inaugural, seguido de vitórias contrastantes sobre Escócia e Haiti, revelam uma equipa versátil: capaz de sofrer e segurar vantagens, mas também de protagonizar espectáculos frenéticos, como o 4-2 frente aos haitianos.

Nos dezasseis-avos-de-final, Marrocos superiorizou-se aos Países Baixos, mas precisou de um golo nos descontos para evitar a eliminação. Contra o Canadá, o pragmatismo voltou a imperar: poucos remates, muita eficácia e um bloco defensivo quase intransponível. Agora, o próximo obstáculo poderá ser a França, adversário temido e teste de fogo para as ambições marroquinas. A expectativa é enorme: se os Leões do Atlas ultrapassarem este desafio, igualarão o feito histórico de 2022 e reforçarão o estatuto de potência emergente no futebol mundial. O mundo já não olha para Marrocos como outsider – a candidatura ao título está lançada e a história pode estar prestes a ser reescrita.

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