Johan Cruyff, uma lenda do futebol, é indiscutivelmente um dos jogadores mais icónicos da história do desporto. O seu nome não é apenas sinónimo de talento futebolístico; é também uma representação do espírito revolucionário que transformou o jogo. No entanto, por trás do seu legado glorioso, existe uma faceta menos conhecida: a sua breve, mas notoriamente caricata, incursão no mundo da música. Prepare-se para uma viagem intrigante que revela que até os maiores ícones podem ter os seus momentos de desconforto.
Cruyff, conhecido como o “Pythagoras em botas”, não se limitou a brilhar nos relvados. Ele foi o maestro que não apenas vestiu a mítica camisa número 14, como também desafiou as normas, inclusive na moda, ao usar dois riscas em camisolas adidas enquanto era patrocinado pela Puma. Para muitos jovens na Holanda dos anos 60, ele representava uma fusão entre a arte do futebol e a música dos Beatles e dos Rolling Stones. Mas, como todos os mortais, Cruyff também cometeu erros.
Um desses erros foi a sua tentativa de se afirmar como músico. Em 1969, lançou um single intitulado “Oei Oei Oei (Dat Was Me Weer Een Loei)”, que se traduz aproximadamente como “oh, oh, oh, ainda outro golpe”. A música, escrita por Peter Koelewijn, narra uma noite infeliz na vida de um primo do cantor, repleta de revezes e desilusões. Embora tenha alcançado o número 21 nas paradas na Holanda e vendido ainda mais cópias em Espanha, onde se tornou um ícone após a sua transferência para o Barcelona, a canção não teve o mesmo impacto que os seus feitos futebolísticos.
O aspecto mais notável da gravação foi a luta de Cruyff para equilibrar a sua confiança em campo com a insegurança no estúdio. O DJ e produtor holandês Marcelle van Hoof recordou que, durante a gravação, Cruyff estava tão nervoso que precisou de um empurrãozinho em forma de bebida para se soltar. Contudo, mesmo com um copo a mais, o resultado final foi apenas aceitável, e a apresentação ao vivo foi um verdadeiro fiasco. Cruyff, que normalmente dominava os campos, mostrou-se tímido e hesitante, olhando para o chão e mal conseguindo lembrar-se das letras.
Koelewijn, que trabalhou com Cruyff, revelou que o jogador tinha pouco sentido de ritmo e que a sua insegurança era palpável. “Ele pediu um ‘cola-tic’, uma mistura de cola com gin, e depois pediu mais. Foi assim que ele começou a relaxar.” Após algumas bebidas, Cruyff tornou-se mais solto, mas a sua verdadeira natureza como artista musical nunca se concretizou.
No entanto, a história não termina aqui. Durante as suas atuações em direto, Cruyff revelou que, em jogos do Ajax, ele se deixava cair propositadamente, simulando lesões para ganhar livres e promover os seus patrocinadores. “Ele ficava lá deitado durante dois minutos,” comentou Koelewijn, revelando a astúcia do jogador que sempre teve o controle da sua narrativa.
Assim, mesmo quando parecia que Cruyff estava a falhar em sua tentativa de ser um ícone musical, ele demonstrou que, por trás do homem, estava sempre a mente astuta de um verdadeiro génio do desporto. Johan Cruyff não precisava de uma carreira na música para ser uma estrela do rock; essa era a sua essência desde o início. Com um legado que transcende o futebol, Cruyff continua a ser uma figura fascinante, uma lenda que nos ensina que, mesmo os maiores entre nós, podem ser surpreendidos pelas suas próprias limitações.
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