A rivalidade entre Inglaterra e Argentina no futebol ultrapassa gerações, marcada por episódios que misturam guerra, polémicas e glória desportiva, mas agora o foco é apenas no jogo. O confronto entre as duas selecções, confirmado como uma das meias-finais do Mundial de 2026, reacende memórias do conflito das Malvinas em 1982, mas o seleccionador argentino Lionel Scaloni rejeita qualquer ligação para além do futebol: “Isto é só um jogo de futebol. Não vamos procurar outras coisas. É um jogo contra uma grande equipa, com um grande treinador que admiro. Mas é um jogo de futebol. Ponto final.”
O médio argentino Rodrigo De Paul reforça esta posição, lembrando o peso histórico mas sublinhando o presente: “Percebemos que é um jogo que transcende; traz memórias do que Diego fez. Cantamos canções sobre os nossos heróis das Malvinas, principalmente para os lembrar, mas temos de entender que é um jogo de futebol e que as Malvinas têm de ser discutidas noutro lado. O que aconteceu foi uma atrocidade e lembramo-nos sempre dos caídos, mas o que queremos é ganhar este jogo para chegar à final.”

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A referência a Diego Maradona é inevitável. O lendário jogador marcou para sempre a rivalidade com o seu desempenho decisivo nos quartos-de-final do Mundial de 1986, primeiro com o polémico golo com a mão, depois com o célebre “golo do século” após uma espectacular finta a vários jogadores ingleses. Maradona chegou a ironizar que aquele lance fora obra da “mão de Deus” e confessou que “foi como roubar a um inglês”. A ideia de vingança pela guerra das Malvinas ficou assim impregnada no imaginário popular, ainda que o próprio Maradona, em 2014, tenha qualificado o conflito como “uma guerra sem sentido, organizada por dois governos assassinos”.
O ambiente quente entre adeptos também marcou encontros passados, como a luta entre barras bravas argentinos e hooligans ingleses em 1986, onde um veterano das Malvinas esteve envolvido. “Ninguém odeia mais a guerra do que um soldado”, disse esse homem, destacando que o futebol é “sobre amor, beleza e alegria” e que não tem “nada a ver com ódio”.
Do lado inglês, momentos dramáticos como a expulsão de David Beckham em 1998, provocada por Diego Simeone, e a vingança de Beckham em 2002 são recordados como capítulos intensos desta rivalidade. O confronto mais recente, um amigável em Genebra em 2005, terminou com vitória inglesa e teve Roberto Ayala e Walter Samuel na defesa argentina, figuras que hoje fazem parte da equipa técnica liderada por Scaloni.
Scaloni e Tuchel, treinadores das selecções, destacaram após os encontros recentes que, apesar de haver margem para melhorias técnicas, as suas equipas demonstram uma mentalidade valiosa que poderia ser “engarrafada e vendida”, nas palavras do técnico alemão. A relação entre Inglaterra e Argentina no futebol é, assim, uma história de guerra, emoção, mas também de amizade, poesia e cultura — um duelo que vai muito além do relvado e que continua a fascinar o mundo. O jogo 102 promete ser mais um capítulo inesquecível.
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