O sexismo no futebol é uma chaga que teima em persistir, mesmo diante de décadas de luta por igualdade de género. Angela, uma apaixonada adepta do Liverpool de 72 anos, tem assistido a jogos de futebol ao longo da sua vida, mas ainda se vê a questionar sua presença no estádio. “Cala-te. O que sabes sobre futebol? Deverias estar na cozinha a preparar o chá do teu marido”, diz Angela, um testemunho do preconceito que ainda permeia o mundo do futebol.
De acordo com a organização anti-discriminação Kick It Out, foram registados 131 incidentes de sexismo em estádios de futebol entre o início da temporada e o final de fevereiro, um número alarmante que mais do que duplica em comparação com o mesmo período da temporada anterior. Uma fã anónima revela a profundidade do problema, afirmando que o misoginia no desporto a levou a não levar a sua filha a jogos masculinos. “Levarei-a ao jogo das mulheres, se isso não for estragado, mas não a levarei aos jogos dos homens até ela ser muito mais velha”, desabafa. “Não me sentiria segura e definitivamente não queria expô-la ao sexismo.”
A BBC Sport investigou a realidade das mulheres nos estádios, consultando fãs, autoridades policiais e especialistas para compreender a prevalência do sexismo no futebol e as soluções necessárias para combatê-lo. Zoe Hitchen, fotógrafa desportiva, partilha a sua experiência amarga ao documentar jogos de futebol masculino entre 2008 e 2010. “Era comum ser alvo de cânticos sexistas e frequentemente perguntavam-me: 'Sabes mesmo o que é futebol?'”, relata. A pressão era constante, e Zoe sentia que para frequentar os jogos masculinos, tinha de “sorrir e aguentar.” O assédio não vinha apenas dos adeptos, mas até mesmo dos mascotes, que se permitiam gestos inaceitáveis: “O mascote vinha e agarrava-me.” Apesar de reportar esses incidentes, nada era feito pelas autoridades dos clubes.
Outra fã, também anónima, expressa sua indignação: “Como se atrevem a tentar menosprezar-te ou a empurrar-te para fora de algo que amas?” A experiência de utilizar casas de banho em estádios revela ainda mais a normalização da invasão do espaço feminino, com relatos de homens a invadir os cubículos das mulheres.
No mundo online, o sexismo não dá tréguas. Simran Atwal, fã do Derby County e voluntária da campanha Her Game Too, partilha que a maior parte do abuso que enfrenta ocorre através das redes sociais. “As imagens que publico podem acabar em contas de outras pessoas, e uma vez lá, qualquer um pode comentar”, afirma. As publicações tornam-se alvos de comentários sexualizados, sem que ela tenha controle sobre a situação. O problema ainda se agrava com a manipulação de imagens através de inteligência artificial, onde fotos de mulheres são alteradas para parecer que estão em trajes de banho, uma prática ilegal no Reino Unido, mas que continua a ser uma realidade aterrorizante.
Diante de tudo isto, a questão que se coloca é: o sexismo no futebol é um reflexo de uma crise societal maior? Com o aumento dos relatos de abusos, tanto em estádios como online, é imperativo que se tome uma posição clara e decisiva contra este problema enraizado. A luta contra o sexismo no futebol é uma batalha que não deve ser subestimada e que exige a atenção e ação de todos os envolvidos, desde os clubes até os torcedores. É hora de parar de silenciar as vozes femininas e assegurar que o futebol seja um espaço inclusivo para todos.
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