Bianca Andreescu a um triunfo do regresso ao quadro principal de Wimbledon

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Enquanto as estrelas do ténis mundial lutavam sob os holofotes do Australian Open, Bianca Andreescu vivia o lado mais sombrio e solitário do desporto: a antiga campeã do US Open encontrava-se, em Janeiro, a disputar torneios de terceira categoria do circuito ITF, em pavilhões vazios, sem pontos para o ranking nem garantias de futuro. Cinco meses depois, está a apenas uma vitória de regressar ao quadro principal de Wimbledon, provando que até os maiores podem ter de se reinventar na sombra para regressar à ribalta.

Bianca Andreescu, actualmente com 26 anos e ocupando o 180.º lugar do ranking mundial, ultrapassou esta quarta-feira a suíça Jil Teichmann, número 126, numa batalha épica de duas horas e trinta e três minutos, vencendo por 6-7(4), 6-1 e 6-4 na segunda ronda do qualifying de Wimbledon. O duelo, decidido ao fim da tarde, testou todos os limites físicos e mentais da canadiana, que desperdiçou três match points quando liderava por 5-1 no terceiro set e viu a adversária, visivelmente limitada por problemas físicos, recuperar dois jogos antes de Andreescu selar a vitória ao sexto ponto de encontro, com um winner de direita em plena linha.

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A importância deste momento não se esgota no resultado desportivo. Depois de conquistar o US Open em 2019, Andreescu enfrentou uma sucessão de infortúnios: uma grave lesão no joelho durante as WTA Finals, a interrupção provocada pela pandemia, uma lombalgia que a afastou nove meses em 2023 e, já em 2024, uma apendicite de emergência que adiou o arranque da sua época. Só em Abril voltou à competição, num torneio WTA 125 em Rouen, iniciando uma árdua caminhada de recuperação que a levou até aos courts relvados de Wimbledon, onde agora tenta um regresso ao palco maior do ténis.

“Jogar esses torneios ajudou-me a desenvolver mais ferramentas para aguentar em qualquer ambiente. Ninguém estava a assistir, não havia bancadas, nada disso. Estou muito grata por essa experiência. Toda a adversidade que vivi ajudou-me a ultrapassar o encontro renhido de hoje”, explicou Andreescu, em declarações ao site oficial de Wimbledon, sublinhando como a solidão e a ausência de público nos torneios ITF na Florida, no início da temporada, acabaram por fortalecer a sua resiliência competitiva.

No final do encontro diante de Teichmann, Andreescu não escondeu a satisfação pela forma como geriu a pressão nos momentos decisivos. “Estou muito feliz com o meu foco, especialmente no fim. Houve muita adversidade hoje. O calor, obviamente. Ela também enfrentou dificuldades, de outra forma. Estou super feliz pela maneira como consegui fechar o encontro. Não foi nada fácil”, afirmou, visivelmente aliviada, após garantir o acesso à ronda decisiva do qualifying.

A abordagem mental que agora exibe foi forjada tanto nos grandes palcos como nos recintos vazios. Relembra-se da final do US Open de 2019, quando, com apenas 19 anos e a ocupar o 15.º lugar do ranking, derrotou Serena Williams em pleno Arthur Ashe Stadium, tornando-se a primeira canadiana a conquistar um Grand Slam. “Estou a tentar encarar cada encontro como se fosse uma final de Grand Slam; esse é o meu mindset, mas com um pouco mais de prazer. Fazer isto em cada encontro não é fácil, mas tento entrar sempre com essa mentalidade. Cada jogo é importante, independentemente de quem está do outro lado da rede”, acrescentou a canadiana, determinada a não desperdiçar mais nenhuma oportunidade.

O percurso de Andreescu em Wimbledon também tem significado simbólico, já que foi neste torneio que, com apenas 17 anos, se qualificou pela primeira vez para o quadro principal de um Major. “Este foi o primeiro Grand Slam para o qual me qualifiquei, por isso guardo aqui muitas boas memórias. Sinto mesmo que estou num Grand Slam”, recordou.

O desafio agora passa por carimbar o regresso ao quadro principal e provar que a luta pelo topo ainda não terminou. Caso ultrapasse a última ronda do qualifying, Andreescu disputará o seu primeiro Major desde o US Open de 2024, tentando quebrar a barreira da terceira ronda, o seu melhor resultado de sempre em Wimbledon, alcançado em 2023 e 2024. O percurso recente mostra que a canadiana está disposta a tudo para voltar ao topo, mesmo que para isso tenha de começar do zero, sem ninguém a assistir. A próxima ronda será decisiva para perceber se este renascimento culmina num novo capítulo de glória em Wimbledon ou se continuará a ser um processo paciente de reconstrução, longe das luzes da ribalta. Uma coisa é certa: Andreescu já provou que, no ténis, a resiliência e a coragem podem ser mais valiosas do que qualquer ranking.

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