A crescente preocupação com as condições extremas de calor em torneios de ténis atingiu um novo patamar com o início do Australian Open de 2026, onde temperaturas recordes ultrapassaram os 40 graus Celsius. Este cenário alarmante não apenas ativou a política de calor extremo do torneio, mas também reacendeu um debate crítico sobre a saúde e o bem-estar dos atletas em face das mudanças climáticas em curso. A pressão está a aumentar sobre os organizadores para implementar medidas mais rigorosas que protejam os jogadores e o público.
As políticas de calor extremo do Australian Open foram estabelecidas em 1998 após longas discussões com vários atletas. A versão atual, introduzida em 2019, utiliza uma escala de 1 a 5 que considera as diferenças fisiológicas entre adultos, atletas em cadeira de rodas e juniores. Esta escala avalia quatro fatores climáticos cruciais: temperatura do ar, calor radiante, umidade e velocidade do vento, todos influenciando a capacidade do corpo do jogador de dissipar calor. A abordagem da ATP e WTA para lidar com o calor extremo evoluiu significativamente ao longo dos anos, mas ainda levanta questões sobre a adequação e eficácia das regras atuais.
Após uma onda de críticas em 2015, os organizadores elevaram o limiar de temperatura de 35 para 40 graus Celsius, permitindo que os jogos continuassem em condições que muitos consideram perigosas. Embora esta mudança tenha sido vista como uma vitória, os especialistas alertam que essa política pode não ser suficiente, especialmente quando as condições de umidade são levadas em conta, o que pode criar um cenário de calor ainda mais extremo.
Os antecedentes de problemas relacionados ao calor no Australian Open são alarmantes. Em 2014, o torneio foi marcado por uma série de incidentes relacionados ao calor, com jogadores e até mesmo espectadores a sofrerem desmaios e outros problemas graves. A competição viu-se forçada a lidar com temperaturas superiores a 41 graus Celsius durante vários dias, levando a um número recorde de desistências. Jogadores como Andy Murray e Frank Dancevic expressaram preocupações sérias sobre a segurança, enquanto outros, como Roger Federer, defendiam que os jogos deveriam continuar, mesmo sob essas condições extremas.
Com a implementação de novas políticas durante o Australian Open de 2026, os organizadores mostraram-se mais atentos. As interrupções dos jogos ocorreram imediatamente nas quadras externas assim que a temperatura ultrapassou os limites estabelecidos. Além disso, os eventos em cadeira de rodas tiveram um início atrasado para respeitar as diferentes necessidades fisiológicas dos atletas. Andy Lapthorne, um destacado jogador de quad, destacou a importância dessa consideração, afirmando que alguns jogadores não conseguem suar devido a lesões na medula espinhal.
A situação não se limita apenas ao Australian Open. Outros torneios, como o US Open e o French Open, também enfrentam desafios semelhantes em relação ao calor extremo. No US Open de 2023, por exemplo, Daniil Medvedev e Andrey Rublev enfrentaram condições extenuantes que levantaram preocupações sobre a segurança dos jogadores, com Medvedev afirmando que “um jogador poderia morrer” devido ao calor sufocante. A crítica não se restringe apenas aos atletas; comentadores e especialistas em saúde também expressaram preocupações sobre os riscos associados ao esforço físico em temperaturas extremas.
A ATP, em resposta a incidentes anteriores, introduziu uma nova política de calor a partir de 2026, que estabelece regras rigorosas para eventos masculinos profissionais, permitindo pausas de resfriamento e suspensões de jogo quando a temperatura atinge níveis perigosos. Por outro lado, a WTA já estabeleceu políticas desde 1992, liderando o caminho na segurança relacionada ao calor.
A situação exige uma análise mais profunda e uma abordagem proativa. A possibilidade de ajustar o calendário do ténis para evitar os meses mais quentes, promover a fusão dos circuitos ATP e WTA e considerar a redução do número de sets são algumas das soluções sugeridas. No entanto, a resistência a mudanças significativas, especialmente em termos de direitos de transmissão e contratos, pode dificultar a implementação de medidas que garantam a segurança dos jogadores e do público.
À medida que o clima continua a aquecer, a comunidade do ténis deve agir rapidamente para garantir que a saúde e a segurança de todos os envolvidos sejam priorizadas. A esperança é que não tenhamos que esperar por uma tragédia para que sejam adotadas políticas rigorosas e eficazes que lidem com esta questão cada vez mais premente no mundo do desporto.
