Serena Williams critica sistema antidoping antes do regresso a Wimbledon

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Serena Williams voltou a abalar o panorama do ténis mundial ao atacar ferozmente o sistema de controlo antidoping, precisamente no momento em que se preparava para um aguardado regresso a Wimbledon. Numa altura em que as regras rígidas colocaram já em causa a carreira de Markéta Vondroušová, recentemente suspensa durante quatro anos, a lenda norte-americana não teve papas na língua ao denunciar o que considera ser um sistema inflexível e desumano, prejudicando não só a sua vida profissional como também a pessoal.

Em conferência de imprensa antes do arranque de Wimbledon, Serena Williams fez questão de expor publicamente a sua frustração com o actual sistema de testes antidoping, que obriga todos os jogadores a disponibilizarem diariamente a sua localização – os chamados “whereabouts” – para possíveis controlos surpresa. “É extenuante. Mudaram as regras agora. Eu nem sabia de algumas. Pelos vistos, se falhar um teste fora da minha janela, conta como teste falhado”, explicou a campeã de 23 Grand Slams. “É como se não pudesse ir buscar os meus filhos. Não é profissional. Odeio isto. Acho que é necessário, mas também acho que muitas destas regras, se quiser ir a algum lado fora da minha janela, devia poder fazê-lo sem que isso conte como teste falhado”, acrescentou, vincando o impacto negativo destas exigências na sua rotina.

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A norte-americana, que continua a ser uma das figuras mais carismáticas e influentes do ténis, foi mais longe ao revelar que o peso do sistema antidoping foi um dos factores decisivos para não ter regressado mais cedo à competição. “Esse foi um dos grandes motivos pelos quais não quis voltar mais cedo, porque é realmente muito difícil. A minha vida é ocupada, dirijo uma empresa, uma firma de capital de risco, viajo pelo mundo. Tenho filhos. Posso estar em várias cidades ao mesmo tempo”, sublinhou Serena, escancarando a realidade de uma atleta cuja vida se tornou praticamente incompatível com as imposições do regulamento.

O debate sobre os controlos antidoping reacendeu-se após a suspensão de Markéta Vondroušová, que confessou ter sofrido um ataque de stress agudo quando os agentes antidoping apareceram inesperadamente em sua casa. Sob a alçada da ITIA (Agência Internacional de Integridade no Ténis), os jogadores podem ser sancionados mesmo sem acusarem positivo em qualquer substância, bastando três “falhas de localização” no espaço de um ano para serem castigados. Esta rigidez, segundo críticos como Serena, coloca em causa não só a justiça do sistema, mas também o bem-estar mental dos atletas.

Esta não é, contudo, a primeira vez que Serena Williams ergue a voz contra o que considera ser uma perseguição injusta. Em 2018, a campeã já havia recorrido às redes sociais para denunciar o número anormal de testes a que era submetida: “E chega aquela altura do dia em que sou ‘aleatoriamente’ testada para doping e apenas testam a Serena. De todos os jogadores, está provado que sou quem é mais testada. Discriminação? Acho que sim. Pelo menos mantenho o desporto limpo”, escreveu então no X (antigo Twitter).

Perante a crescente contestação, a ITIA apressou-se a clarificar as regras. Em resposta à Associated Press, a organização esclareceu: “Se um agente de controlo não conseguir contactar um jogador durante a hora alocada, isso poderá ser considerado uma infração, e três falhas podem conduzir a um processo disciplinar.” No entanto, garantiram que “não houve quaisquer alterações às regras nos últimos anos” e sublinharam: “Compreendemos que o sistema possa parecer difícil, mas serve para proteger os jogadores, não para os prejudicar.”

O caso de Serena Williams junta-se a outros de relevo, como o de Jenson Brooksby, jogador ATP que em 2023 foi suspenso durante 18 meses por ter falhado três testes no prazo de um ano, alegando que o telefone estava em silêncio e não recebeu a chamada dos agentes. A polémica está instalada e, numa altura em que Wimbledon volta a concentrar as atenções do mundo do ténis, o escrutínio sobre a eficácia, proporcionalidade e humanidade do sistema antidoping nunca foi tão intenso.

Com a segunda ronda do mítico torneio de relva à porta, a pressão para que as entidades revejam as normas é agora maior do que nunca. As declarações de Serena Williams prometem manter o tema na ordem do dia, obrigando a ITIA e as organizações desportivas a ponderar não só a luta pela integridade, mas também o respeito pelos direitos e pela vida privada dos atletas. A polémica está longe de terminar e, com vozes tão influentes a insurgirem-se, dificilmente o ténis mundial voltará a olhar para o antidoping da mesma forma.

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