Benfica enfrenta prejuízo milionário até €15 milhões com centralização dos direitos televisivos e conflito aberto com investidor norte-americano
O Benfica está no centro de uma tempestade financeira que promete abalar os alicerces do futebol português. Nuno Catarino, vice-presidente e diretor financeiro da SAD encarnada, revelou numa entrevista exclusiva que o clube poderá perder entre 5 a 15 milhões de euros por ano caso o processo de centralização dos direitos televisivos avance nos moldes atualmente propostos. Este cenário, descrito pelo próprio dirigente como «inaceitável», coloca em causa a estabilidade financeira e a estratégia de crescimento do emblema lisboeta.
«Com base no cenário de €220 milhões apontado pela Liga, estamos a falar de uma perda provável de 5 a 15 milhões de euros [por ano] para o Benfica, dependendo de outras variáveis. É uma situação inaceitável para nós, e por isso a nossa abordagem tem sido construtiva — que é a nossa postura natural — mas simultaneamente assertiva», sublinhou Catarino em declarações ao ECO, deixando claro o descontentamento do clube.
O responsável financeiro deixa também uma abertura para o diálogo, porém com condições rigorosas: «Reconhecemos que para a maioria dos clubes nacionais esta centralização representa uma situação muito complexa. Já existem cinco ou seis clubes que não conseguiram negociar, ou que receberam propostas muito baixas, porque os operadores tiram partido da situação. Em 99 por cento das decisões, o bem do futebol português é o bem do Benfica, e vice-versa. Por isso, defendemos uma centralização voluntária, em que os clubes que assim o desejem se agreguem para, em conjunto, obterem melhores condições. O Benfica não precisa desse processo para ter boas condições de mercado — mas reconhece que, para muitos outros clubes, faz todo o sentido.»
A Liga reduziu as expectativas iniciais, apontando agora para um valor global de receitas televisivas entre €220 e €225 milhões, muito abaixo dos €300 milhões inicialmente previstos. O Benfica, que já detém receitas substanciais provenientes da publicidade dinâmica no estádio e do contrato publicitário da BTV, acredita que a centralização obrigatória poderá prejudicar a sua posição no mercado: «O valor total de receitas de televisão para as duas épocas chega a 114,2 milhões de euros se incluirmos a publicidade dinâmica no estádio retida pelo Benfica [€7,2 milhões para duas épocas] e o contrato de exploração publicitária da BTV [€2,4 milhões]. O Benfica não precisa da centralização para valorizar o seu produto. Por isso, faria muito mais sentido uma centralização voluntária ou um adiamento do próprio prazo, para dar tempo a que o trabalho preparatório seja feito», reforçou Catarino.
Além do impacto imediato nas receitas, o Benfica continua a apostar na diversificação das suas fontes de rendimento para diminuir a dependência dos direitos de transmissão. O CFO destacou que o plano para atingir 500 milhões de euros em receitas consolidadas durante o mandato de Rui Costa permitirá uma «dependência da conta de direitos de atletas bastante mais baixa» do que a atual.
No epicentro desta crise financeira está também a relação tensa com a empresa norte-americana Lenore Sports Partners (LSP), que detém mais de 5% da Benfica, SAD, numa situação que levou o clube a avançar com um processo judicial. Em maio do ano passado, o Benfica requereu a nulidade da transmissão das ações de Luís Filipe Vieira para a LSP, alegando um direito de preferência que não teria sido respeitado.
«Apresentámos o requerimento em tribunal, mas ainda não obtivemos resposta. O processo segue o seu curso. A Lenore é, neste momento, detentora das ações, foram-lhe atribuídas pelo Tribunal. Nós apresentámos o pedido com base no direito de preferência. O Tribunal, na primeira decisão, deixou o processo avançar, sem dar resposta ao nosso pedido», explicou Nuno Catarino, revelando ainda que o contacto com os acionistas qualificados da LSP existe, mas que a situação gera «fricção»: «Qualquer acionista qualificado tem interlocução connosco. Na qualidade de CFO, tenho contacto com eles e conhecemos as pessoas. Não é um tema de cariz institucional. Cria alguma fricção, porque a primeira coisa que lhes dizemos é que esta situação ainda pode vir a alterar-se.»
Para agravar a situação financeira, esta segunda-feira arranca a primeira emissão obrigacionista de cinco anos na história do Benfica, no valor de €40 milhões. Apesar do montante, Catarino garante que o clube dispõe de tesouraria suficiente para saldar €50 milhões, excluindo a possibilidade de utilização desta verba para reforços no futebol profissional: «Nós vamos para uma emissão obrigacionista de €40 milhões porque sabemos que podemos pagar os €50 milhões com a tesouraria corrente. Não. O mercado de transferências é sempre gerido de forma independente das emissões obrigacionistas, e não faria sentido que fosse de outra forma.»
Este cenário expõe um Benfica que luta para proteger a sua autonomia financeira, enfrentar desafios institucionais e manter a competitividade, enquanto o futuro dos direitos televisivos e a influência de investidores externos ameaçam alterar profundamente o panorama desportivo nacional. A batalha está lançada e a estabilidade do clube poderá depender de decisões estratégicas que se avizinham decisivas para o futebol português.
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