A estreia do Brasil no Campeonato do Mundo de 2026 ficou marcada por um empate explosivo frente a Marrocos, num jogo em que os pentacampeões mundiais evitaram a todo o custo uma “humilhação” e confirmaram todos os receios da crítica: o passado dourado do ‘escrete’ está a tornar-se uma verdadeira maldição. A Seleção Canarinha, agora liderada pelo italiano Carlo Ancelotti, continua a despertar paixões e polémicas, mas revelou sérias dificuldades perante uma seleção marroquina tecnicamente evoluída e tacticamente superior em largos períodos do encontro.
O embate teve lugar na América do Norte, palco do Mundial 2026, e terminou com um empate a uma bola, após 90 minutos intensos e de grande qualidade técnica, sobretudo do lado marroquino. O Brasil, que outrora entrava em campo como favorito absoluto, viu-se em apuros face à organização e fluidez dos norte-africanos. A imprensa do país irmão não tardou em classificar a exibição como “cinzenta” e pouco promissora, sublinhando que a equipa apenas escapou à “humilhação” por mera sorte e alguma eficácia defensiva nos momentos cruciais.

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Este resultado não é, de todo, inocente: quatro anos após a eliminação nos quartos-de-final do Mundial 2022, sob o comando do brasileiro Tite, o Brasil volta a tropeçar logo na estreia, desta vez já sob a batuta de um treinador estrangeiro. A escolha de Carlo Ancelotti para liderar o ‘escrete’ foi um murro no estômago do nacionalismo futebolístico brasileiro. O técnico italiano, célebre pelos seus títulos europeus mas inédito no futebol de seleções, enfrenta agora uma pressão interna brutal e uma vigilância constante dos sectores mais conservadores do futebol brasileiro, que continuam a olhar com desconfiança para tudo o que venha de fora.
O contexto é claro: o futebol africano já não é o parente pobre das décadas anteriores, e Marrocos provou-o em 2022, ao atingir as meias-finais do Mundial. O Brasil, por seu lado, recusa-se a aceitar que o seu modelo, baseado no talento individual e na ginga, precisa de se reinventar perante adversários cada vez mais competitivos e globalizados. O afastamento progressivo de jogadores e treinadores brasileiros dos grandes palcos europeus também tornou a Seleção menos preparada para duelos de alto nível, numa altura em que quase todos os atletas de topo africanos, europeus e até asiáticos actuam nos melhores campeonatos do Velho Continente.
As vozes críticas não tardaram a fazer-se ouvir. Durante a conferência de imprensa após o encontro, Ancelotti foi confrontado com a onda de descontentamento: “Sabemos que o Brasil é uma selecção com uma história extraordinária, mas temos de nos adaptar ao futebol moderno. Marrocos demonstrou isso em campo. Eu acredito no trabalho e na evolução, mas precisamos de tempo”, afirmou o treinador italiano, numa tentativa de apaziguar ânimos e de ganhar margem para implementar as suas ideias. Nomes históricos do futebol brasileiro apressaram-se a comentar nas televisões e redes sociais, questionando se um estrangeiro seria mesmo a solução certa para o renascimento do ‘escrete’.
A polémica está instalada e o ambiente em redor da Seleção é de cortar à faca. O espectro da derrota pesada frente à Alemanha em 2014, o célebre 1-7 no Mineirão, paira ainda sobre a cabeça de todos. Recorde-se que, à época, muitos reclamaram a necessidade de uma revolução e de uma liderança externa. Agora, com Ancelotti, o nacionalismo exacerbado só está à espera de um deslize maior para retomar a ladainha: “Não precisámos de ninguém de fora para sermos pentacampeões mundiais”, dizem alguns, esquecendo que o futebol evoluiu e que os velhos dogmas já não servem para vencer.
Para o Brasil, o Mundial de 2026 pode ser um divisor de águas. Se Ancelotti conseguir unir o plantel e impor um futebol verdadeiramente competitivo, talvez abra caminho a uma nova era. Caso contrário, a pressão interna poderá tornar-se insuportável e o país do futebol voltará a mergulhar na nostalgia, incapaz de aceitar a sua nova realidade. O próximo encontro será decisivo para perceber se o ‘escrete’ está pronto para acordar do seu sono ou se continuará a dormir… com o inimigo ao lado.
Por curiosidade histórica, o Mundial 2026 disputa-se em terras norte-americanas, onde Eusébio, o lendário “Pantera Negra”, brilhou nos seus últimos anos como profissional, espalhando magia no México, Estados Unidos e Canadá. Talvez seja esse o exemplo de reinvenção que o Brasil precisa de seguir para voltar a encantar o mundo.
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