Ignorar a República Democrática do Congo pode revelar-se um erro fatal para Portugal logo na estreia no Mundial. Num embate que muitos já dão como garantido a favor dos lusos, há um conjunto de argumentos irrefutáveis que demonstram por que razão subestimar esta selecção africana pode ser um dos maiores perigos para as aspirações nacionais.
Portugal inicia hoje a sua caminhada no Mundial com um duelo frente à República Democrática do Congo, um adversário que, à primeira vista, poderá parecer acessível aos olhos de muitos adeptos portugueses. O encontro terá lugar num estádio repleto de expectativas, onde a pressão sobre a selecção nacional será enorme. No entanto, quem acompanha o futebol africano sabe que esta confiança pode ser perigosa e até precipitada. O Congo chega ao Mundial com uma equipa recheada de talento e experiência internacional, pronta para surpreender qualquer gigante.

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O futebol africano sofreu uma autêntica revolução nos últimos anos. As selecções africanas, tradicionalmente conhecidas pela intensidade, força física e velocidade, evoluíram de forma notável. Hoje apresentam-se organizadas, com jogadores habituados a competir nas melhores ligas europeias e com uma confiança competitiva inalcançável há apenas duas décadas. Esta evolução ficou patente no recente jogo entre Nigéria e Congo, a contar para o apuramento do Mundial, onde o Congo não só teve mais posse de bola como também criou mais oportunidades de golo e apresentou um valor de xG (golos esperados) muito superior ao da poderosa Nigéria. Em largos períodos do jogo, os congoleses foram claramente a equipa mais perigosa em campo.
Porque é que isto importa para Portugal? A resposta é simples: as selecções africanas já não se contentam em participar, mas sim em competir e discutir cada ponto até ao apito final. O Congo em particular simboliza esta nova realidade. Ignorar este adversário pode custar caro, numa fase de grupos onde qualquer deslize pode comprometer a qualificação. Mais do que nunca, o favoritismo só se confirma dentro das quatro linhas e a história recente está recheada de surpresas protagonizadas por selecções africanas.
A lista de razões para Portugal não subestimar o Congo é extensa e contundente. Desde logo, a qualidade de jogo com bola. Esta selecção não vive apenas da transição rápida; é capaz de construir, controlar e gerir diferentes momentos do jogo. A mentalidade de inferioridade já não existe. Esta geração de jogadores congoleses cresceu a competir nos melhores campeonatos do mundo e sabe o que é jogar sob pressão. Os números frente à Nigéria comprovam uma equipa ofensivamente ambiciosa, que cria oportunidades de forma constante.
Chancel Mbemba, capitão da selecção e figura do Olympique de Marselha, é um verdadeiro líder dentro e fora de campo. A sua experiência, personalidade e capacidade competitiva fazem dele um dos mais respeitados do futebol africano. Nas laterais, Aaron Wan-Bissaka, actualmente ao serviço do West Ham United, é conhecido por ser um dos defesas mais difíceis de ultrapassar, capaz de anular muitos dos desequilíbrios portugueses nas alas. Meschack Elia, extremo do Young Boys, destacou-se como o jogador mais perigoso frente à Nigéria e representa uma ameaça constante na profundidade defensiva adversária.
Arthur Masuaku, lateral do Beşiktaş, oferece experiência internacional e uma capacidade de cruzamento que pode criar perigo a qualquer momento. Noah Sadiki, médio do Union Saint-Gilloise, simboliza a nova vaga do futebol africano: inteligência, critério e capacidade de ligação entre sectores tornam-no fundamental na manobra da equipa. Cédric Bakambu, avançado do Real Betis, é um veterano com faro de golo e grande conhecimento do futebol europeu, mantendo-se sempre perigoso na zona de finalização.
Talvez a maior diferença em relação ao passado esteja na mentalidade. Esta selecção do Congo entra em campo convicta de que pode competir com qualquer adversário, incluindo Portugal. Como afirmou um dos jogadores congoleses antes do encontro: “Acreditamos verdadeiramente no nosso valor. Viemos para competir, não para fazer figura de corpo presente.” Esta frase, dita na conferência de imprensa de antevisão ao jogo, resume a nova mentalidade da equipa.
Portugal, claro, continua a ser favorito. Conta com um plantel mais profundo, jogadores com maior experiência internacional e recursos individuais para resolver jogos complicados. No entanto, como dizia Edgar Morin, “os sistemas complexos valem mais do que a simples soma das suas partes”, e é precisamente essa a força deste Congo: uma equipa organizada, competitiva e capaz de ultrapassar o valor individual dos seus jogadores graças ao colectivo.
O desafio para Portugal será conseguir impor o seu futebol desde o primeiro minuto, sem cair na armadilha da confiança excessiva. Uma entrada adormecida pode abrir caminho para uma surpresa desagradável, com impacto directo nas contas do grupo. A República Democrática do Congo não veio para participar. Veio para competir, para lutar até ao apito final e para provar que o futebol africano já não teme ninguém no palco mundial. Os portugueses estão avisados: ignorar este adversário pode sair caro e o Mundial não perdoa facilidades.
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