Hansi Flick está a revolucionar o Barcelona, mas será que o seu legado é tão brilhante quanto os títulos conquistados? O treinador alemão de 61 anos chegou ao clube catalão em 2024 e, desde então, tornou-se uma figura única no panorama blaugrana: não é catalão nem espanhol, não tem ligações históricas ao clube nem domina o espanhol, preferindo comunicar em inglês. No entanto, o seu estilo de jogo controverso e audacioso tem dividido opiniões entre os fãs e especialistas, especialmente pela disparidade entre o sucesso em La Liga e as dificuldades na Champions League.
Sob o comando de Flick, o Barcelona voltou a dominar a cena nacional com dois títulos consecutivos da La Liga (2024/25 e 2025/26), incluindo uma vitória emblemática no El Clásico que reafirmou a supremacia do clube sobre o eterno rival. Além disso, conquistou a Copa del Rey em 2024/25 e triunfou na Supercopa de Espanha em 2025 e 2026, recolocando o Barcelona no topo do futebol espanhol. No entanto, o cenário europeu tem sido muito diferente, com eliminações frustrantes e polémicas.
Na Champions League 2024/25, o Barcelona caiu na meia-final num épico confronto com a Inter de Milão, com um agregado de 7-6 que ficou marcado por um segundo jogo absolutamente louco. A derrota foi ainda mais amarga quando a Inter foi goleada pelo Paris Saint-Germain na final, deixando uma sensação de oportunidade perdida para os blaugrana. Já na temporada seguinte, a eliminação aconteceu nos quartos-de-final perante o Atlético de Madrid, uma equipa teoricamente inferior no campeonato doméstico, mas que aproveitou as falhas defensivas do Barcelona e as expulsões em ambos os jogos para garantir a passagem.
O principal motivo das dificuldades europeias reside no estilo de jogo de Flick, baseado num pressing alto e agressivo, que embora tenha dominado a liga espanhola, tem sido uma faca de dois gumes contra equipas europeias capazes de explorar os contra-ataques. O resultado? Muitas vezes o Barcelona vê-se vulnerável ao ser apanhado em cima no terreno, com defesas e médios expostos, situação que custou caro em jogos decisivos.
A tática do “gegenpressing” de Flick é implacável e exige uma linha defensiva extremamente elevada, com jogadores como Pau Cubarsí e Jules Koundé a assumirem papéis cruciais para pressionar e recuperar a bola rapidamente. No entanto, ao contrário de outras equipas que moderam a intensidade do pressing contra adversários mais fortes, o Barcelona mantém o ritmo elevado independentemente do rival, um risco calculado que nem sempre compensa.
Outro fator que torna o Barcelona de Flick tão peculiar são as alas profundamente abertas, com jogadores como Lamine Yamal e Raphinha posicionados junto à linha lateral, explorando a largura do campo para criar desequilíbrios e abrir espaços. Esta estratégia ofensiva é eficaz para desmantelar defesas, mas deixa o clube ainda mais exposto a transições rápidas, pois os extremos raramente recuam para ajudar na defesa, e os laterais avançam para apoiar o ataque, ampliando o espaço nas costas.
Apesar das críticas e dos percalços europeus, Flick parece apaixonado pelo projeto no Barcelona e o clube demonstra querer garantir a sua continuidade para além de 2027, quando termina o seu contrato atual. O próprio treinador já afirmou publicamente que esta será a sua última experiência enquanto treinador, não considerando mudar para outro clube.
“Este será o meu último trabalho e estou muito feliz aqui,” afirmou Flick em março de 2026. “Preciso de falar com a minha família, mas temos tempo para isso. Adoro trabalhar aqui. O mais importante para mim é a minha família e o apoio que sinto em Barcelona. Mas sabemos como funciona o futebol, e não pensámos em sair para outro clube.”
Hansi Flick é um treinador que divide opiniões pelo seu estilo arriscado mas eficaz, pelo sucesso doméstico e pelas desilusões europeias. O seu legado no Barcelona está longe de ser linear, mas é inegável que o alemão devolveu o clube ao topo em Espanha e deixou a sua marca num dos maiores palcos do futebol mundial. A verdadeira questão é se conseguirá, antes de se despedir, quebrar a barreira europeia e traduzir a sua filosofia num triunfo continental que confirme a sua genialidade. Até lá, o Barcelona segue na encruzilhada entre o risco e a glória.
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