A imagem de Donald Trump a segurar o troféu do Mundial na Casa Branca tornou-se o ícone de um torneio envolto em polémica, marcado por tensões políticas, exclusão e uma raiva latente que ameaça transformar a maior celebração do futebol num palco de divisão global. Enquanto o planeta inteiro se prepara para assistir ao arranque do Mundial nos Estados Unidos, cresce o desconforto com a natureza deste evento, que, em vez de unir, parece acentuar clivagens e alimentar hostilidades.
O arranque do Mundial em Los Angeles, na sexta-feira à noite, ficará para a história não apenas pelo pontapé de saída, mas pelo contexto explosivo em que ocorre: os EUA, liderados por Donald Trump, estão envolvidos em múltiplos conflitos militares, incluindo ataques ao Irão — segunda classificada do grupo G — e uma crise económica global desencadeada em simultâneo. O ambiente de repressão é palpável: a polícia da guarda nacional mexicana teve de escoltar a comitiva iraniana em Tijuana, enquanto o árbitro somali Omar Artan, considerado o melhor de África, viu-se impedido de entrar em solo americano devido às políticas migratórias radicais impostas por Trump. Foi neste cenário que Gianni Infantino, presidente da FIFA, chegou a Cidade do México, aparentemente mais interessado em manter-se próximo do poder do que em defender os princípios de inclusão do futebol.

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A importância deste Mundial transcende a esfera desportiva. Para além da habitual euforia, este torneio simboliza o momento em que o futebol se rende, sem escrutínio, à lógica do poder americano, servindo de cortina de fumo para práticas de “sportswashing” e imperialismo. Pela primeira vez, um país anfitrião proíbe a entrada de membros da própria FIFA, institucionalizando o isolamento e o antagonismo. As mensagens oficiais de esperança, como a que Jason Sudeikis (no papel de Ted Lasso) irá transmitir antes do jogo inaugural entre os EUA e o Paraguai, soam a cinismo num contexto em que o país organizador perpetua guerras e bloqueios, ao mesmo tempo que apregoa o futebol como força de união mundial.
Gianni Infantino, presidente da FIFA, tem tentado passar uma imagem de apaziguador internacional: “O futebol une o mundo”, repete, utilizando até o lema latinizante “Pediludus Coniungit Mundum”. No entanto, tudo indica que em Los Angeles estará mais alinhado com o “modo Trump”, mostrando-se indiferente à exclusão de árbitros e delegações inteiras, bem como à repressão de comunidades. O próprio Infantino, omnipresente e sedento de protagonismo, parece confortável a associar o futebol a agendas políticas controversas, ignorando as consequências para a integridade da modalidade.
A exclusão deliberada de Omar Artan, o árbitro somali, não é mero acaso. É, segundo muitos observadores, uma mensagem política clara dirigida à base eleitoral de Trump, que transformou o Mundial num palco de isolamento americano. “Esta era a intenção desde o início”, afirmam fontes ligadas à organização, reforçando que não se tratou de um lapsus ou de excesso de zelo, mas de uma estratégia consciente para alimentar a narrativa tóxica do “nós contra eles”, tão cara à administração Trump.
A presença da selecção iraniana em Los Angeles, poucos dias depois de o país ter sido alvo de bombardeamentos americanos e israelitas, ilustra o grau de contradição e tensão em que o futebol se encontra. O ambiente é surreal e carregado de ironia: enquanto os adeptos discutem as capacidades defensivas de Djed Spence ou as surpresas das convocatórias, o mundo arde em conflitos desencadeados pelo próprio anfitrião do torneio.
Este Mundial, mais do que nunca, levanta questões sobre a capacidade do futebol sobreviver à instrumentalização política. A FIFA, liderada por Infantino, optou por abdicar de um comité organizador local, preferindo entregar a operacionalização do torneio a figuras do universo “MAGA”, como Andrew Giuliani, aprofundando a ligação entre futebol e política de direita radical. O próprio Infantino corre o risco de ver a sua liderança contestada nas próximas eleições, após ter absorvido para si toda a imagem da FIFA, tornando-se o rosto de uma estratégia de sobreposição entre poder desportivo e poder político.
O futuro imediato do Mundial apresenta-se incerto e sombrio. Se, por um lado, a maquinaria mediática e comercial da FIFA garante o espectáculo, por outro, o desgaste de valores como a inclusão, a tolerância e a coesão ameaça deixar cicatrizes profundas no futebol mundial. O que acontecerá quando a festa terminar? Até que ponto os adeptos, jogadores e países envolvidos continuarão a tolerar a manipulação do “desporto-rei” em prol de agendas políticas hostis? A resposta poderá chegar já nas próximas semanas, quando o verdadeiro impacto deste controverso Mundial se começar a fazer sentir — dentro e fora das quatro linhas.
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