A FIFA acaba de revolucionar por completo a forma como as tabelas da fase de grupos do Mundial são ordenadas, ao introduzir um novo critério de desempate que pode virar a competição do avesso e transformar a abordagem estratégica das selecções. Pela primeira vez na história do Campeonato do Mundo, o confronto directo passa a ser o principal critério de desempate entre equipas que terminem com os mesmos pontos, relegando a tradicional diferença de golos para segundo plano.
Esta alteração entra em vigor já no Mundial de 2026, nos Estados Unidos, Canadá e México, e promete ter um impacto imediato e potencialmente explosivo nos últimos jogos da fase de grupos. Até agora, desde 1970, a diferença de golos era o critério privilegiado pela FIFA para separar equipas empatadas em pontos, valorizando os resultados totais do grupo. Antes disso, até 1966, ainda se utilizava o rácio de golos, dividindo os golos marcados pelos sofridos. Com esta mudança, a FIFA alinha-se finalmente com a UEFA, que há muito dá prioridade ao desempenho directo entre selecções, considerando-o mais justo e menos susceptível a distorções causadas por resultados atípicos, como a famosa goleada da Alemanha por 7-1 frente à Curaçao.

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A lógica da FIFA é clara: “Avaliar o desempenho directo entre duas equipas é mais justo, pois elimina o impacto de resultados anormais”, explicaram fontes próximas da organização, salientando que assim se evita que uma selecção beneficie de uma vitória esmagadora contra um adversário mais fraco para ultrapassar rivais directos. No entanto, muitos defendem que a diferença de golos continua a ser um indicador mais fiel da consistência exibicional ao longo da fase de grupos.
Esta nova abordagem ao desempate já foi testada, com sucesso, no último Mundial de Clubes, quando o Flamengo terminou à frente do Chelsea no Grupo D, graças ao confronto directo, apesar da igualdade pontual. Agora, com a chegada ao maior palco do futebol mundial, as consequências podem ser ainda mais dramáticas.
Um dos efeitos mais imediatos é que será muito mais fácil para uma equipa garantir não só o apuramento, mas também o primeiro lugar do grupo logo após a segunda jornada, algo que era raro com o sistema anterior. Antes, uma selecção precisava de estar quatro pontos à frente do segundo classificado depois de dois jogos para assegurar matematicamente o topo do grupo, o que só acontecia se os outros dois encontros tivessem terminado empatados. Agora, basta estar três pontos à frente e ter vencido o adversário directo para garantir o primeiro lugar, tornando a última jornada, em muitos casos, irrelevante para os líderes.
O caso do México ilustra perfeitamente esta nova realidade. Depois de vencer os dois primeiros jogos e somar seis pontos, a selecção mexicana já não pode ser ultrapassada pela Coreia do Sul, que tem três pontos, porque o México já a derrotou no confronto directo. Com a República Checa e a África do Sul empatadas com um ponto cada, o México sabe que vai defrontar um terceiro classificado nos oitavos-de-final, em casa, na Cidade do México. Isto cria um cenário em que o México poderá poupar titulares e gerir o plantel contra a República Checa, beneficiando indirectamente esta última numa luta potencial pelo apuramento dos melhores terceiros classificados.
A vantagem de garantir o apuramento antecipado estende-se a vários grupos. Por exemplo, na luta pelo topo do Grupo C, a Escócia pode assegurar o primeiro lugar se vencer Marrocos e o Brasil não derrotar o Haiti. No Grupo D, os Estados Unidos só precisam de vencer a Austrália e que a Turquia não ganhe ao Paraguai para garantir o primeiro posto. A Alemanha, no Grupo E, carimba o apuramento se bater a Costa do Marfim e o Equador não triunfar sobre Curaçao. O mesmo se aplica à Suécia no Grupo F, desde que vença os Países Baixos e o Japão não bata a Tunísia; ou à Argentina no Grupo J, caso derrote a Áustria e a Jordânia não vença a Argélia.
Esta dinâmica pode revolucionar a gestão dos plantéis, pois as selecções que garantirem cedo o apuramento poderão optar por rodar jogadores na última jornada, alterando o equilíbrio competitivo e beneficiando adversários ainda em luta pela qualificação. A pressão sobre os treinadores aumenta, obrigando a uma leitura estratégica muito mais sofisticada, onde cada jogo entre candidatos directos assume um peso decisivo.
Com o novo critério da FIFA, a emoção e polémica prometem aumentar, pois o destino de equipas pode ser decidido muito mais cedo, e os jogos finais podem perder intensidade ou, em contrapartida, tornar-se autênticas finais antecipadas. Resta saber se esta aposta na justiça desportiva vai ser bem recebida pelos adeptos e pelos próprios intervenientes, ou se acabará por gerar novas controvérsias e debates intermináveis. Para já, o que é certo é que o Mundial de 2026 já começou a ser jogado… fora das quatro linhas, nas regras que podem decidir um campeão.
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