A eliminação da Coreia do Sul do Mundial de 2026 provocou uma autêntica convulsão nacional, com ondas de choque a percorrer todo o universo do futebol coreano. Nem o lendário estatuto de Hong Myung-bo, histórico capitão da equipa de 2002, o poupou à fúria dos adeptos e à pressão mediática, levando-o a demitir-se poucas horas após se consumar a desilusão. Os protestos subiram de tom a níveis raramente vistos, com ameaças de morte dirigidas ao treinador e as localizações dos regressos dos jogadores e equipa técnica ao país mantidas em segredo, por questões de segurança.
Hong Myung-bo, que liderou a selecção tanto em 2014 como nesta campanha falhada, anunciou a sua saída no domingo, visivelmente emocionado. “Estou genuinamente muito arrependido”, afirmou o ex-seleccionador, reconhecendo a dimensão do fracasso logo após o adeus ao torneio. Esta saída forçada surge num contexto de enorme contestação, agravada pelas palavras do icónico Park Ji-sung, antigo jogador do Manchester United: “É miserável termos chegado a este ponto em que precisamos de olhar para trás e perguntar porque acabámos aqui”, lamentou, espelhando o sentimento de frustração que atravessa toda a nação.

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A crise não se explica apenas por duas semanas desastrosas no México – o descontentamento já vinha a fermentar há meses. A Coreia do Sul começou o Grupo A com uma vitória promissora frente à Chéquia, por 2-1, mas logo se seguiu uma derrota por 1-0 ante o México, deixando a equipa, recheada de estrelas como Son Heung-min (Tottenham), Lee Kang-in (Paris Saint-Germain) e Kim Min-jae (Bayern Munique), dependente de um empate frente à África do Sul para garantir o apuramento. Contudo, Hong optou por deixar Son no banco, e a equipa acabou derrotada. O antigo internacional Lee Young-pyo não poupou nas críticas: “Foi o pior jogo de uma selecção coreana no século XXI”, disparou em directo na televisão, aumentando ainda mais a pressão sobre o seleccionador.
O ambiente no estágio foi tudo menos pacífico. Em Junho, jornalistas captaram comentários depreciativos sobre o histórico militar de Son, que conquistou a isenção ao serviço obrigatório depois de vencer os Jogos Asiáticos em 2018. Em resposta, os jogadores boicotaram durante dias as obrigações mediáticas domésticas. Son, que cumpre 34 anos em Julho, poderá estar a preparar-se para se despedir da selecção, e nem sequer haverá cerimónia pública de regresso ao país – o evento planeado foi cancelado devido ao clima de hostilidade.
O escândalo ultrapassou o relvado e chegou à política nacional. O Presidente Lee Jae-myung emitiu um comunicado nas redes sociais, declarando sentir “não apenas confusão, mas total perplexidade perante este desfecho inesperado” e apontando o dedo à má gestão: “Quando o favoritismo e o compadrio se sobrepõem à competência na escolha do comandante, o resultado é tão previsível como o fogo a queimar papel”, escreveu, numa crítica aberta à liderança da Federação Coreana de Futebol (KFA).
Chung Mong-gyu, presidente da KFA desde 2013 e membro da poderosa família Hyundai, está no centro da controvérsia. Foi alvo de críticas por ter contratado Hong Myung-bo fora dos procedimentos habituais, repetindo a polémica de um ano antes com Jurgen Klinsmann. A contestação alastrou-se aos adeptos, que vaiaram Hong logo no seu primeiro jogo, e ao próprio governo, com o Ministério do Desporto a recomendar a suspensão de Chung e outros dirigentes. A KFA respondeu com uma providência cautelar em tribunal, permitindo a Chung manter-se no cargo e conquistar um quarto mandato em Fevereiro de 2025.
O futuro do futebol sul-coreano encontra-se num momento crítico. A selecção perdeu prestígio internacional e o ambiente tóxico ameaça afastar talentos e patrocinadores. A pressão sobre a KFA para reformar a sua governação é agora insustentável, e há quem defenda uma limpeza total na estrutura federativa. Com a possibilidade de Son Heung-min abandonar a selecção, a Coreia do Sul arrisca-se a perder o seu maior ícone numa altura em que precisava de estabilidade e liderança.
Nos próximos meses, todas as atenções estarão voltadas para as eleições na federação e para as eventuais reformas estruturais. A Federação terá de reconstruir a confiança dos adeptos e restaurar a imagem internacional do futebol sul-coreano, enquanto lida com a herança amarga deste fracasso. O ciclo de mudanças promete ser turbulento – e o país não perdoará outro desaire.
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