Surpreendente reviravolta em Wembley: a selecção inglesa, recheada de estrelas e fortemente favorita, viu-se à beira do abismo perante a congolesa, apenas resgatada pelo génio de Harry Kane. O embate contra a República Democrática do Congo, 46.ª classificada no ranking FIFA, revelou-se uma autêntica dor de cabeça para Thomas Tuchel e expôs fragilidades preocupantes na abordagem táctica dos ingleses.
O cenário parecia simples: Inglaterra, sob o comando de Tuchel, enfrentava uma congolesa teoricamente inferior, mas acabaria por suar para arrancar uma vitória graças a dois golos salvadores de Harry Kane. O encontro, realizado em Wembley, deixou a nu as dificuldades inglesas perante a inesperada ousadia táctica do seleccionador congolês, Sébastien Desabre, que alterou radicalmente o sistema para um 4-4-2 ofensivo, apanhando a formação britânica completamente desprevenida.

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Esta exibição apagada dos ingleses assume especial relevância tendo em conta o próximo desafio: defrontar o México, anfitrião do Mundial, no mítico Estádio Azteca, nos oitavos-de-final. Se a equipa de Tuchel mantiver o rendimento demonstrado frente à RDC, o sonho do título poderá terminar mais cedo do que os adeptos britânicos desejariam. Para além do resultado, o modo como a Inglaterra foi explorada tacticamente serve de sério aviso para os próximos embates, onde cada erro poderá ser fatal.
A chave para o sufoco inglês esteve na forma como a RDC construiu o seu jogo. Ao abdicar do habitual 5-3-2 em favor de um 4-4-2 dinâmico, Desabre conseguiu neutralizar a pressão alta inglesa. Utilizando o guarda-redes e três jogadores centrais na primeira fase de construção, os congoleses conseguiram superioridade numérica sobre Harry Kane e Jude Bellingham, obrigando Marcus Rashford e Noni Madueke a abrirem demasiado, afastando-se dos centrais. Isto fragmentou a linha defensiva inglesa e deixou jogadores como Declan Rice e Elliot Anderson perdidos entre subir na pressão ou manter a posição, criando buracos explorados constantemente pelo adversário.
Esta abordagem, curiosamente, é semelhante à que o México utiliza sob o comando de Javier Aguirre, embora recorrendo a um 4-3-3. Os mexicanos são peritos em criar largura e em movimentações que desposicionam as linhas adversárias, exactamente como a RDC fez. A movimentação sem bola dos médios congoleses arrastou Rice e Anderson para zonas desconfortáveis, permitindo que os avançados recuassem e recebessem sem marcação — um movimento que Raul Jimenez executa frequentemente pela selecção mexicana.
Tuchel terá de repensar toda a estratégia defensiva. Ou aposta num bloco baixo, mais compacto e expectante, cedendo a iniciativa mas fechando os espaços para circulação curta, ou arrisca manter a pressão alta, mas com ajustes fundamentais. Uma solução poderá passar por juntar um médio a Kane e Bellingham na pressão, obrigando um dos centrais a subir e ocupar o espaço atrás de Rice — uma tarefa para a qual Marc Guehi se destaca no Manchester City. No entanto, como se viu na quarta-feira, o pior cenário será manter-se indeciso entre as duas abordagens, deixando a equipa vulnerável, exactamente como aconteceu frente à RDC.
No capítulo ofensivo, a Inglaterra voltou a mostrar dificuldades em construir ataques fluidos perante o 4-4-2 congolês, repetindo problemas já evidenciados nos jogos do grupo diante do Gana e do Panamá. Apesar de Tuchel apostar fortemente nas “unidades largas”, com triângulos compostos por lateral, médio ofensivo e extremo a rodar posições, a equipa demorou a encontrar soluções. Só com maior controlo da posse na segunda parte conseguiu atenuar o perigo criado pela RDC — mas frente ao México, fora de casa e com a pressão do Estádio Azteca, controlar o ritmo será bem mais complicado.
Após o apito final, Tuchel não escondeu o alívio, mas também reconheceu as lacunas: “Fomos surpreendidos pela forma como a RDC se apresentou. Tivemos dificuldades em ajustar a pressão e isso custou-nos caro. Precisamos de melhorar rapidamente se queremos ir longe neste Mundial”, afirmou o treinador alemão na conferência de imprensa. Harry Kane, o herói da noite, foi peremptório: “Não estivemos ao nosso nível, mas estas vitórias sofridas também fazem parte. Agora é olhar para o México e corrigir o que falhámos”, declarou o avançado inglês ainda em campo.
O próximo encontro contra o México será o verdadeiro teste à capacidade de aprendizagem e adaptação táctica da Inglaterra. O risco de repetir os erros de Wembley é real, especialmente perante um adversário com armas semelhantes e ainda mais talento individual. A pressão está toda do lado de Tuchel, que terá de reinventar a equipa para evitar novo susto — ou mesmo uma eliminação precoce. Os adeptos esperam respostas rápidas, e o tempo para experimentar acabou: ou a Inglaterra cresce e mostra porque é favorita, ou poderá despedir-se do Mundial numa das atmosferas mais temidas do futebol mundial.
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