Nick Kyrgios despediu-se dos relvados de Wimbledon com um escândalo sonoro, protagonizando uma explosiva discussão com o árbitro de cadeira e lançando duras críticas ao regulamento mesmo perante a possibilidade de uma multa astronómica. O polémico australiano, finalista há quatro anos no All England Club, parece ter decidido que esta foi a sua última aparição em relva londrina — e não deixou dúvidas de que, até ao fim, faz questão de ser notícia.
O encontro de pares, disputado ao lado do cazaque Alexander Bublik, terminou com derrota frente à dupla sexta cabeça-de-série, Marcelo Arevalo e Mate Pavic, que venceu por 6-3 e 6-4. O momento de maior tensão surgiu logo no início do segundo set, quando Pavic e Arevalo quebraram o serviço e abriram vantagem. Foi então que Kyrgios, visivelmente irritado, se sentou ao lado do árbitro Manuel Absolu e atirou: “Sinceramente, neste momento podem multar-me, eu já nem quero saber”, disparou o australiano, perante o olhar estupefacto dos presentes. E insistiu: “Podem multar-me, não quero saber. Estas regras são todas tão estúpidas”. O incidente, que envolveu linguagem imprópria, poderá custar-lhe até 50 mil dólares, de acordo com o regulamento dos Grand Slams, que prevê sanções severas para palavrões em campo.

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A reacção de Kyrgios não surpreendeu quem acompanha a sua carreira recheada de episódios polémicos e confrontos com a autoridade. O australiano, famoso tanto pelo talento como pelos excessos, soma já um longo histórico de multas — incluindo 113 mil dólares por conduta violenta no Cincinnati Masters de 2019, quando insultou o árbitro Fergus Murphy e destruiu raquetas nos bastidores. Em Wimbledon, também não escapou às sanções: em 2022, foi multado três vezes, duas delas por linguagem imprópria, além de outro episódio em que cuspiu na direcção de um espectador, totalizando 10 mil dólares em multas nesse torneio.
Se o comportamento de Kyrgios voltou a roubar as atenções, a grande questão do dia era saber se este seria, de facto, o adeus definitivo ao sagrado relvado de Wimbledon. No final do encontro, o ex-número 13 mundial não oficializou a retirada, mas deixou claro que as hipóteses de regressar são remotas. “Provavelmente diria com alguma confiança que foi o meu último Wimbledon”, admitiu, visivelmente emocionado na conferência de imprensa. “No fim, olhei à volta, tentei absorver tudo… Foi difícil. Sinto que, fisicamente e em todos os aspectos, seria complicado voltar aqui e competir”. Kyrgios confessou ainda que a maior dor é não conseguir corresponder às expectativas dos seus adeptos, mas não fechou por completo a porta ao ténis: “Não estou pronto para terminar a carreira já, mas jogar singulares a este nível parece impossível para o meu corpo”.
O episódio de ontem reacendeu o debate sobre a relação de Kyrgios com as regras e a disciplina no circuito. Questionado sobre a troca acalorada com Absolu, o australiano tentou clarificar a sua posição: “Nunca disse que devia ser permitido dizer palavrões. Apenas acho que algumas regras são ridículas. Mantenho o que disse. A maioria das regras são tradicionais e estão bem, mas há outras completamente desajustadas”, explicou, sem abdicar do seu estilo frontal.
Com Wimbledon fora do horizonte, o futuro próximo de Kyrgios está envolto em incerteza. O parceiro de pares, Alexander Bublik, avança para defrontar Kyrian Jacquet na próxima ronda do torneio, enquanto o australiano aguarda pelo veredicto disciplinar e pelo valor da multa que lhe poderá ser aplicada. A dúvida mantém-se: voltará Kyrgios a pisar o palco de SW19 ou ficará este polémico adeus como o seu último grande acto no templo do ténis mundial? Uma coisa é certa — o australiano nunca passará despercebido, nem mesmo no dia da sua despedida. Para já, todos os olhares estão postos na decisão dos organizadores e na reacção do próprio Kyrgios, que parece determinado a manter-se fiel a si próprio, custe o que custar.
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