Cristiano Ronaldo, o ícone máximo do futebol português, arrisca-se a ver a sua gloriosa carreira manchada por insistir em ser titular numa selecção nacional que já não precisa dele como outrora. O debate em torno da utilidade de Ronaldo no onze inicial de Portugal tornou-se ensurdecedor, ofuscando até os resultados dos jogos da equipa das quinas. A cada esquina, café ou estação de metro, a discussão repete-se: estará Ronaldo a prejudicar a própria selecção ao não reconhecer que já não é imprescindível?
Após o empate inesperado frente à República Democrática do Congo, uma selecção sem tradição ou palmarés mundialista, o futuro de Ronaldo voltou a dominar a actualidade desportiva nacional. Aos 41 anos, o capitão soma presenças, mas já não consegue esconder que perdeu o fulgor de outros tempos. No último jogo, tocou na bola apenas 25 vezes – menos do que qualquer outro jogador que esteve os 90 minutos em campo. Não conseguiu ameaçar a baliza adversária nem desestabilizou a organização defensiva do Congo, algo impensável nos seus tempos áureos.

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Este cenário representa uma viragem radical face ao passado recente. Durante anos, sugerir que Ronaldo devia sair do onze era heresia, mas hoje tornou-se uma opinião largamente partilhada, com adeptos e especialistas a exigirem mudanças. O seleccionador Roberto Martínez, no entanto, mantém o capitão como titular indiscutível, uma decisão que muitos consideram incompreensível e prejudicial para as aspirações de Portugal. O plantel luso está repleto de talento, com jogadores como Vitinha, Bruno Fernandes ou João Neves prontos para assumir protagonismo. Persistir em Ronaldo é, para muitos, travar a evolução natural da equipa.
No rescaldo do empate, Ngal’ayel Mukau, médio do Congo, admitiu: “Sabemos que ele já não é o mesmo de antes. Está um pouco mais velho agora. Mas continua a ser um dos maiores de sempre. Temos muito respeito por ele.” Estas palavras, vindas de um adversário, soam a um elogio envenenado e jamais teriam sido proferidas durante o pico da carreira de Ronaldo. Hoje, refletem uma verdade que se tornou impossível de ignorar, inclusive para o próprio balneário português.
O mais surpreendente neste impasse é a ausência de coragem, tanto por parte do seleccionador como do círculo próximo de Ronaldo, para lhe dizer frontalmente aquilo que todos percebem: se realmente quer ajudar Portugal, talvez devesse abdicar do estatuto de titular e passar o testemunho. “Os jogadores da sua dimensão têm o dever de reconhecer quando já não acrescentam o mesmo à equipa”, sintetiza o sentimento generalizado. O próprio Ronaldo, com a sua obsessão pela competição e a busca incessante pela superação, dificilmente aceitará o papel de suplente sem luta, mas a lógica futebolística já não o favorece.
Apesar de tudo, ninguém defende que Ronaldo deva ser afastado da selecção. A sua experiência e liderança continuam a ser trunfos valiosos, sobretudo nos bastidores e como inspiração para os mais jovens. A federação portuguesa reconhece o seu peso comercial e mediático, relevante em qualquer competição mundial. E, claro, poderá haver momentos em que a sua entrada, vinda do banco, faça a diferença em jogos de alto risco.
O drama está em perceber como será lembrado. Permanecerá na memória colectiva como o prodígio madeirense que conquistou o mundo ou como o craque que não soube sair de cena a tempo? O desgaste físico é notório: já não recua nas transições defensivas, perdeu a explosividade e a movimentação incessante que o distinguiam. Fernando Santos já tinha percebido isso no Mundial do Qatar, quando o deixou no banco, quebrando a aura de intocável. Com Roberto Martínez, no entanto, foi-lhe devolvida a titularidade sem contestação.
O que se segue agora é uma incógnita. A pressão para que Martínez tome uma decisão difícil aumenta a cada jogo em que Ronaldo não corresponde. A alternativa de uma saída digna, com o capitão a liderar a partir do banco e a orientar a nova geração, parece ser a solução mais benéfica para todos. Resta saber se Ronaldo aceitará esse papel ou se continuará a arriscar o legado construído ao longo de décadas. Para Portugal, o futuro pode passar por uma equipa mais leve, dinâmica e adaptada ao futebol moderno — mas só será possível se o maior de sempre aceitar finalmente que até as estrelas têm de saber quando sair de palco.
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