Cristiano Ronaldo prepara-se para fazer história ao tornar-se apenas o segundo futebolista a alinhar em seis fases finais de Mundiais, igualando o feito de Lionel Messi. Aos 41 anos, o capitão português volta a ser o centro das atenções, mas desta vez a pressão é ainda maior: para Portugal sonhar com o título mundial em 2026, Ronaldo terá de protagonizar o torneio da sua vida.
A selecção portuguesa inicia a campanha no Mundial frente à RD Congo, numa estreia marcada pela expectativa e pelas dúvidas em torno do papel de Ronaldo. Depois de Messi se ter tornado, na véspera, no primeiro jogador a participar em seis Mundiais, Ronaldo iguala o rival argentino, alimentando uma rivalidade que já atravessa duas décadas e que parece não ter fim. Contudo, enquanto Messi, aos 38 anos, mantém-se o cérebro e motor da Argentina, Ronaldo já não tem a mesma influência ou preponderância física de outrora no ataque luso. A pergunta impõe-se: será que Portugal não seria mais forte sem o seu maior ícone dentro de campo?

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Apesar da idade avançada, Ronaldo continua a ser um finalizador letal, mas os seus tempos de explosão e pressão constante sobre as defesas adversárias ficaram para trás. A jogar na Liga Saudita há quatro temporadas, após a saída atribulada do Manchester United em 2022, o avançado tem sido alvo de críticas quanto à sua competitividade no contexto internacional. Poderá um jogador que actua num campeonato periférico ser decisivo num palco como o Mundial?
O percurso de Ronaldo nas fases finais começou aos 21 anos, quando foi titular em todos os jogos de Portugal no Mundial 2006 e marcou o penálti decisivo nos quartos-de-final diante de Inglaterra, numa campanha que terminou com um honroso quarto lugar. No entanto, desde que o madeirense assumiu o papel de referência máxima no ataque, Portugal nunca voltou a ultrapassar os quartos-de-final, tendo mesmo ficado pela fase de grupos em duas ocasiões.
Importa, contudo, sublinhar que nem todos os insucessos nacionais podem ser atribuídos a Ronaldo. A selecção das Quinas foi, por muitas vezes, demasiado conservadora nas abordagens aos jogos. Em 2018, por exemplo, Ronaldo brilhou na fase de grupos com quatro golos, mas Portugal caiu nos oitavos-de-final perante o Uruguai. Curiosamente, todos os oito golos de Ronaldo em Mundiais aconteceram na fase de grupos — um dado surpreendente para um dos maiores goleadores da história do futebol. Em fases a eliminar, Ronaldo continua em branco, bem como nas assistências, onde soma apenas uma — também ela na fase de grupos.
A comparação com Messi torna-se inevitável: o argentino contabiliza seis assistências em Mundiais, evidenciando a diferença de perfil entre ambos. Messi é mais construtor, Ronaldo mais finalizador — e isso reflecte-se no número de passes decisivos. O domínio de Ronaldo nos lances de bola parada também tem sido alvo de debate, dado o decréscimo de eficácia nos livres directos (apenas um golo em grandes torneios, precisamente no Mundial 2018).
Nos últimos tempos, Bruno Fernandes, eleito Jogador do Ano da Premier League inglesa, tem dividido responsabilidades nos livres com Ronaldo. O médio do Manchester United, com 31 anos, chega ao Mundial após uma época brilhante: nove golos e um recorde absoluto de 21 assistências na liga inglesa. Fernandes assume-se como o novo cérebro da selecção, desempenhando um papel semelhante ao de Messi na Argentina. Questionado sobre o protagonismo nas bolas paradas, o seleccionador português admitiu: “Vamos decidir jogo a jogo, mas o Bruno tem mostrado enorme qualidade.”
O meio-campo português é, de resto, um dos mais completos do torneio, com nomes como Bernardo Silva, Vitinha e João Neves. Na defesa, Rúben Dias e Gonçalo Inácio garantem solidez ao centro, com João Cancelo e Diogo Dalot a darem profundidade nas alas. Ainda assim, não existe uma alternativa clara a Ronaldo no eixo do ataque. Gonçalo Ramos, o substituto natural, registou apenas 12 golos em 45 jogos pelo PSG esta época, longe dos 18 da temporada anterior. Esta falta de concorrência directa reforça o estatuto quase incontestável de Ronaldo no onze titular.
O Mundial 2026 apresenta-se, assim, como o derradeiro teste à lenda madeirense. Portugal tem uma geração de talento ímpar e argumentos para ambicionar o troféu, mas a dependência de Ronaldo persiste. Se quiser conquistar o único título que lhe falta, Ronaldo terá de contrariar o peso da idade e reinventar-se mais uma vez, mostrando que ainda é capaz de decidir ao mais alto nível. Os próximos jogos serão decisivos para perceber se o capitão está à altura do desafio ou se chegou, finalmente, o momento de passar o testemunho.
O que se segue poderá definir, não só o legado de Cristiano Ronaldo, mas também o futuro imediato da selecção nacional. Uma eliminação precoce reacenderá o debate sobre a renovação, enquanto uma campanha de sucesso cimentará ainda mais o estatuto mítico do madeirense. O mundo do futebol está atento — e Portugal vive as emoções ao rubro, à espera de mais um capítulo inesquecível na história do seu maior craque.
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