O escândalo que abala o futebol feminino argentino atinge um novo patamar de gravidade: já são oito as jogadoras que denunciam o ex-treinador Diego Guacci por abuso e assédio sexual. A polémica, que já vinha a ser investigada desde 2021, ganhou uma dimensão pública avassaladora após três novas denúncias terem sido reveladas no Senado da Nação Argentina, durante o evento «A voz na primeira pessoa: falam as jogadoras».
As revelações chocantes expostas no Senado não deixam dúvidas sobre o clima de intimidação e violência psicológica que as atletas foram forçadas a suportar. Jogadoras e jornalistas desportivas relataram episódios de assédio sexual, ameaças e humilhações sistemáticas perpetradas por Guacci e pela sua esposa, que, em resposta, recorreram à justiça para processar as vítimas, numa tentativa clara de silenciar as denúncias e perpetuar o abuso.
Aldana Videla Quintana, futebolista do Platense, denunciou uma perseguição cruel relacionada com a sua orientação sexual. «Ele assediava-me por causa da minha sexualidade, em cada treino repetia que o meu rendimento dependia de eu estar ou não com a minha parceira. Fazia-me entender que para estar na seleção tinha de ter os mesmos ovários que tinha para demonstrar a minha sexualidade publicamente, como se ser lésbica fosse mau. Mandava-me tomar banho sozinha, longe da equipa, num balneário gigante onde eu tinha medo que me acontecesse alguma coisa», revelou em declarações emocionantes.
Outro testemunho devastador veio de Florencia Mercau, jogadora do Morón, cujas palavras foram lidas pela advogada Andrea Lucangioli. Florencia descreveu pressões extremas e chantagens por parte de Guacci: «Quando cheguei ao River tinha 20 anos. O Diego Guacci assediava-me, pedia-me fotos nua e, se eu não as enviasse, não jogava. Dizia-me que, se eu contasse alguma coisa, me procuraria por céu e terra para me matar. Tive de deixar aquele clube que tanto amo por medo». A advogada acrescentou que Mercau não compareceu pessoalmente devido ao medo paralisante que sofre e revelou que a jogadora enfrentou uma tentativa de suicídio, ainda sem recuperação completa do trauma infligido pelo treinador.
Também a internacional equatoriana Mabel Velarde juntou a sua voz ao coro de denúncias: «Decidi falar ao fim de onze anos, faço-o pelas meninas, pelas novas gerações, pelas mulheres. É muito importante que existam processos de reparação, processos restaurativos e que as pessoas que transgridem limites possam assumir a responsabilidade pelas suas ações».
As acusações originais, apresentadas em 2021 através do sindicato mundial de futebolistas (FIFPRO), continham expressões cruéis que atestam o ambiente tóxico e abusivo criado por Guacci, como «És capaz de te deixares violar para chegar à Seleção», «És uma fracassada. És horrível, gorda» e ameaças de violência sexual explícita.
Um detalhe perturbador é que, segundo a advogada Lucangioli, apesar de as identidades das denunciantes não constarem nos processos oficiais, Guacci conseguiu descobrir quem eram e expôs publicamente as suas identidades, agravando ainda mais a situação das vítimas. Além disso, ele e a esposa avançaram com processos judiciais contra quatro das jogadoras, numa clara tentativa de intimidação para silenciar as vozes que exigem justiça e responsabilização.
Este caso não só expõe o lado mais obscuro do futebol feminino argentino, mas também lança um alerta global sobre o abuso de poder e a cultura de silêncio que ainda prevalece em muitos desportos. A luta destas oito mulheres é um passo fundamental para a transformação do sistema e um chamado urgente à FIFA e às autoridades competentes para que sejam tomadas medidas enérgicas e imediatas contra o assédio e abuso sexual no desporto. O silêncio já não é uma opção – é hora de justiça e mudança.
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