A surpreendente e polémica regressão de José Mourinho ao comando do Real Madrid, treze anos após uma saída turbulenta, está a reacender debates intensos entre adeptos e especialistas do futebol mundial. Poucos se admiraram com esta decisão, afinal, Florentino Pérez, o presidente merengue, é conhecido por um círculo restrito de treinadores de confiança, e Mourinho é um nome que nunca desapareceu do seu rol. A verdade inconveniente é que, no Real Madrid, tentativas de renovar o comando técnico com treinadores inovadores quase sempre acabam em desilusão, levando o clube a regressar às suas escolhas de sempre.
Este regresso do “Special One” não é uma surpresa, mas sim uma confirmação da filosofia que impera no Santiago Bernabéu: a preferência por treinadores pragmáticos que saibam adaptar-se às estrelas em campo, em vez de impor sistemas complexos e revolucionários. Carlo Ancelotti e Zinedine Zidane são exemplos claros deste modelo vencedor, com ambos a moldarem a equipa para potenciar as qualidades individuais dos jogadores, em vez de os submeterem a um dogma táctico rígido. E não esqueçamos: o Real Madrid é o clube com mais títulos da Liga dos Campeões da Europa, com quinze troféus.
José Mourinho, embora partilhe alguns traços destes pragmatismos, tem uma abordagem própria que, na sua primeira passagem pelo clube, se revelou um autêntico carrossel de emoções. O estilo defensivo e de contra-ataque, que levou Mourinho ao auge em clubes como Porto, Chelsea e Inter, foi usado para confrontar o domínio do Barcelona de Guardiola, uma equipa que apostava num futebol de posse e posicionamento inovador. Recorde-se a famosa eliminação do Barcelona pelo Inter na Liga dos Campeões, onde Mourinho venceu com apenas 14% de posse de bola, utilizando Samuel Eto’o como um defesa esquerdo improvisado.
No entanto, a passagem de Mourinho pelo Real Madrid não foi só glórias. O momento mais marcante, e talvez mais humilhante, foi o resultado histórico e devastador de 5-0 no clássico contra o Barcelona em novembro de 2010. Este desaire não só ficou gravado na memória dos adeptos como serviu de catalisador para Mourinho implementar o seu estilo, que contrastava com o jogo fluido e posicional do adversário catalão. Para ele, era “o seu caminho ou uma longa fase de humilhação”. E, apesar das críticas e controvérsias, este método resultou: a equipa de Mourinho conquistou a Liga com 100 pontos e 121 golos na segunda temporada.
Mas o lado mais sombrio da era Mourinho em Madrid esteve longe do relvado. Episódios lamentáveis, como o polémico gesto de agressão aos olhos do adjunto do Barcelona, Tito Vilanova, durante um confronto intenso, mancharam a sua imagem e criaram um ambiente tóxico nos bastidores.
Agora, com Mourinho de volta, o Real Madrid parece repetir um ciclo que muitos consideram inevitável: a aposta numa figura carismática e polémica, que sabe gerir egos e impor disciplina, mas que pode também trazer instabilidade. Será este o caminho para mais glórias, ou uma nova fase de turbulência? Uma coisa é certa: o mundo do futebol está atento e preparado para o que promete ser mais uma temporada de emoções fortes no Santiago Bernabéu.
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