Kylian Mbappé não precisou de mais do que 90 minutos para silenciar os críticos e incendiar as esperanças francesas: dois golos e uma exibição devastadora diante do Senegal, coroada ainda pelo impacto imediato de Bradley Barcola vindo do banco, deixam a França novamente com estatuto de candidata ao título. No entanto, a euforia ofensiva esconde uma fragilidade estrutural que poderá custar caro nos momentos decisivos deste Mundial — e todos já se questionam: conseguirá a defesa francesa acompanhar o ritmo estonteante do ataque?
Didier Deschamps apostou tudo numa linha ofensiva de quatro homens, com Mbappé a liderar as operações e ladeado por Michael Olise, Ousmane Dembélé e Désiré Doué. Frente ao Senegal, em jogo de estreia no Campeonato do Mundo, a França venceu por 3-1, com Mbappé a marcar por duas vezes e Barcola a fechar as contas. O jogo decorreu num ambiente de grande tensão, depois de críticas severas à prestação dos gauleses nos encontros de preparação e de uma temporada de altos e baixos para Mbappé ao serviço do seu clube.

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A relevância deste arranque fulgurante não é apenas estatística — é estratégica. A França voltou a mostrar uma capacidade ímpar para marcar golos em catadupa, tal como já tinha feito em 2022, quando foi a par da Argentina a selecção mais concretizadora do torneio, e em 2018, onde só ficou atrás da Bélgica. O plantel de Deschamps apresenta profundidade rara: Barcola, Rayan Cherki e Marcus Thuram dão garantias a partir do banco, enquanto Hugo Ekitike, estrela em ascensão, nem sequer foi convocado devido a lesão. Poucas selecções se podem dar ao luxo de tamanha abundância qualitativa no ataque.
Contudo, por cada lance brilhante no último terço, a França expõe-se a riscos atrás. O Senegal não só conseguiu marcar, como criou várias situações de perigo, aproveitando o espaço entrelinhas e a ousadia da última linha francesa, frequentemente subida no terreno. Este padrão já tinha sido evidente nos jogos de preparação, onde as transições rápidas dos adversários deixaram a nu a vulnerabilidade dos centrais Saliba e Upamecano — dois nomes de topo no futebol europeu, mas muitas vezes deixados sem cobertura devido à estratégia agressiva de Deschamps.
O seleccionador francês não escondeu a filosofia, preferindo apostar no talento atacante em detrimento de maior solidez defensiva. “Temos jogadores capazes de decidir jogos a qualquer momento. O importante é continuarmos fiéis à nossa identidade”, afirmou Deschamps após a vitória sobre o Senegal, reforçando a ideia de que o ataque é, para já, a melhor defesa dos gauleses. Mbappé, instado a comentar o seu regresso à melhor forma, foi taxativo: “Sempre disse que o mais importante é ajudar a equipa a ganhar. As críticas fazem parte, mas respondo dentro de campo”, declarou o capitão francês no final do encontro.
Resta saber até que ponto esta aposta no futebol de risco pode ser sustentável à medida que a competição avança e os adversários se tornam mais exigentes taticamente. Equipas com avançados rápidos e organizados poderão explorar ainda mais as fragilidades evidenciadas, colocando pressão acrescida sobre uma defesa que, mesmo com nomes consagrados, continua a dar sinais de insegurança sempre que perde a posse de bola em zonas adiantadas. O próprio Deschamps admite que há “aspectos a corrigir”, mas mantém-se confiante na fórmula vencedora.
O que se segue para a França é um teste à sua capacidade de adaptação: será possível manter o ADN ofensivo e, ao mesmo tempo, encontrar equilíbrio para não ser surpreendida nos jogos a eliminar? A história recente mostra que os gauleses têm sabido ultrapassar obstáculos com brilhantismo individual, mas numa prova de detalhes como o Mundial, um erro defensivo pode custar um sonho. O próximo encontro será decisivo para perceber se a França consegue ajustar o bloco defensivo sem sacrificar o poder de fogo que a torna temível. Até lá, o debate está lançado: poderá a selecção francesa atacar o título mundial sem pagar um preço elevado pela sua ousadia atrás?
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