O calor extremo está a transformar o arranque de Wimbledon num verdadeiro teste de resistência, e nem mesmo os maiores talentos do ténis mundial escapam às consequências da vaga de calor que assola Londres. As temperaturas atingiram os 33°C no Centro Nacional de Ténis em Roehampton, obrigando à suspensão dos jogos de qualificação devido ao sobreaquecimento do sistema electrónico de arbitragem de linhas — um cenário quase impensável num dos palcos mais tradicionais do desporto.
Na passada quarta-feira, a jornada de qualificação foi abruptamente interrompida por volta das 12h15, quando o equipamento de arbitragem deixou de funcionar devido ao calor sufocante. Apesar do esforço dos técnicos, que conseguiram repor a energia e retomar os encontros mais tarde, o alerta do Met Office mantém-se: prevê-se uma subida ainda maior das temperaturas nos próximos dias, com impacto significativo não só nos desportistas, mas também na população em geral. Perante este quadro invulgar, Coco Gauff e Naomi Osaka, duas das maiores estrelas do circuito feminino, deram a cara e abordaram de frente os desafios de competir sob estas condições extremas.

O MUNDIAL 2026 VIVE-SE COM A LEGO
Enquanto para muitos atletas o calor britânico representa uma adversidade inesperada, para Coco Gauff, natural da Florida, a situação é quase rotina. “Jogar nestas condições não é assim tão mau, porque sou da Florida, mas simplesmente existir neste calor é complicado, porque o ar condicionado não está presente em todo o lado”, admitiu Gauff, destacando o contraste entre o conforto nos courts e as dificuldades no quotidiano londrino — hotéis, transportes, entrevistas e uma cidade pouco preparada para este tipo de verão. Já Naomi Osaka vai mais longe e revela até um certo gosto pelo clima extremo: “Sinceramente, tolero bem o calor. Tirando as entrevistas e coisas do género, adoro o calor. Até prefiro. Estava quente em Paris há umas semanas e também gostei. Por isso, até quero que esteja calor”, confessou a japonesa. Estas declarações foram feitas durante as conferências de imprensa que antecedem Wimbledon, revelando diferentes formas de lidar com o fenómeno meteorológico que ameaça marcar a edição deste ano.
O pano de fundo competitivo das duas jogadoras não podia ser mais contrastante. Coco Gauff chega a Wimbledon numa fase desconfortável da sua temporada em relva. Após uma eliminação precoce no Open de Berlim frente a Paula Badosa, Gauff somou a terceira derrota consecutiva em singulares na relva desde o ano passado, mostrando frustração com a superfície e uma quebra acentuada na percentagem do primeiro serviço ao longo dos sets. Mesmo em pares, ao lado de Jessica Pegula, não foi além dos quartos de final. Apesar do seu domínio noutros pisos, a relva continua a ser um obstáculo difícil de superar para a jovem norte-americana, cuja melhor prestação em Wimbledon são três oitavos de final. Com o quadro principal a iniciar-se já a 29 de junho e sem mais encontros de preparação, Gauff procura um novo começo depois de uma eliminação na primeira ronda em 2023.
No extremo oposto, Naomi Osaka optou por não disputar o torneio de Berlim, preferindo preparar-se em Bad Homburg — uma decisão que parece ter dado frutos imediatos. Venceu com autoridade Magdalena Frech e Elise Mertens, alcançando o seu primeiro quarto-de-final em relva desde ‘s-Hertogenbosch, há dois anos. Contra Mertens, Osaka impressionou com sete ases, 86% de pontos ganhos no primeiro serviço e apenas oito erros não forçados. Este desempenho marca uma viragem para uma atleta que sempre sentiu dificuldades na relva, mas que agora parece estar finalmente a adaptar-se ao piso mais imprevisível do circuito.
A evolução da japonesa é ainda mais notável tendo em conta o seu percurso recente em terra batida, onde chegou pela primeira vez aos oitavos de final de Roland Garros, igualando o feito de Shinobu Asagoe em 2004 para o ténis feminino japonês. Osaka perdeu para a número um mundial Aryna Sabalenka, mas a tendência de crescimento é evidente. Depois da vitória sobre Mertens, Osaka falou abertamente da sua relação complicada com a relva: “Quando era mais nova, na minha primeira época em relva, lesionei-me. Escorreguei e isso assustou-me bastante. Fiquei apreensiva em movimentar-me em relva”, explicou, sublinhando como essa hesitação a acompanhou ao longo dos anos. “Estou a aprender a gostar da relva, como aconteceu com o pó de tijolo. Todos dizem que tenho muito potencial neste piso e ouço isso há anos. Estou apenas a tentar adaptar-me”, acrescentou.
A preparação em Bad Homburg trouxe sinais claros de progresso, com Osaka a destacar a melhoria na movimentação: “Vindo da terra batida é muito diferente. Estou a dar tempo ao meu corpo para se ajustar ao piso”, disse. Hoje, enfrenta Ekaterina Alexandrova nos quartos de final, e um eventual percurso até à final poderia proporcionar-lhe a rodagem em relva que lhe tem faltado noutras temporadas. Chega assim a Wimbledon mais confiante e fisicamente apta do que em anos anteriores, com o calor a ser o menor dos problemas.
A vaga de calor em Londres promete continuar a ser um elemento de decisão — não apenas no desenrolar dos encontros, mas também na preparação e recuperação dos atletas. Resta saber se Coco Gauff conseguirá ultrapassar o bloqueio na relva e se Naomi Osaka confirmará o seu renascimento neste piso. Uma coisa é certa: este Wimbledon está longe de ser apenas mais um torneio — é uma prova de fogo que pode redefinir carreiras e surpreender até os mais experientes.
AGORA PODE ACOMPANHAR O MUNDIAL DE FUTEBOL COM TODA INFORMAÇÃO – AQUI
Discover more from Apito Final
Subscribe to get the latest posts sent to your email.
