Marcus Rashford saltou do banco para marcar o golo decisivo na vitória por 4-2 frente à Croácia e, apesar da exibição ofensiva entusiasmante, deixou Thomas Tuchel com duas dores de cabeça que prometem agitar a próxima semana: manter ou mexer? A escolha entre Rashford e Anthony Gordon para o ataque, e entre Ezri Konsa e Marc Guehi no eixo defensivo, são agora os dilemas que dominam a preparação da Inglaterra para o embate com o Gana em Boston.
Na estreia no Mundial, disputada em Dallas, a Inglaterra de Tuchel apresentou um futebol ofensivo apelativo, mas revelou fragilidades preocupantes na defesa. A aposta do técnico alemão em Konsa, do Aston Villa, em detrimento de Marc Guehi, do Manchester City, ao lado de John Stones, deixou muitos adeptos e analistas a questionar a solidez do sector. Do outro lado do campo, a surpresa foi a titularidade do recém-chegado ao Barcelona, Anthony Gordon, relegando Rashford para o banco – decisão que acabou por ser invertida com o avançado do Manchester United a entrar e a marcar o último golo, selando o triunfo.

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A importância destas escolhas não se esgota no jogo inaugural: Tuchel enfrenta agora uma verdadeira encruzilhada. Num Mundial onde qualquer deslize pode ser fatal, a decisão entre manter a aposta inicial ou arriscar novas combinações pode ditar o sucesso ou fracasso da campanha inglesa. A defesa, ainda que tenha conseguido travar parte da ofensiva croata, exibiu momentos de insegurança, obrigando Jordan Pickford a uma defesa crucial quando o resultado estava em 3-2. O ataque, por outro lado, mostrou capacidade de resposta e profundidade no plantel, mas a dúvida subsiste: será Rashford mais eficaz do que Gordon na esquerda?
Os números não mentem: sob o comando de Tuchel, Konsa foi titular em 10 dos 15 jogos, somando 933 minutos, apenas atrás de Pickford e Kane. Já Guehi ficou-se pelos 504 minutos em sete titularidades, um dado que levanta suspeitas sobre a confiança do treinador no defesa que vendeu quando estava no Chelsea. Konsa, apesar de algumas falhas de posicionamento, como no segundo golo croata, parece convencer Tuchel pelas suas qualidades físicas e leitura de jogo. Stones, apesar dos poucos minutos na Premier League na última época e da incerteza quanto ao futuro, mantém a confiança do técnico para liderar a defesa.
A pressão aumenta com as opiniões de figuras do futebol inglês. Chris Sutton, antigo avançado da selecção, afirmou à BBC Sport: “Por que razão o debate é Guehi por Konsa e não Stones? Eu colocaria Guehi e Konsa, porque são os melhores defesas. Não me interpretem mal, o John Stones foi um grande jogador e tenho enorme respeito pela sua carreira, mas estamos a falar de um jogador que nem sequer tem clube para a próxima época. Não acho que Stones tenha a capacidade atlética que os outros dois possuem. Não é nada contra o John, que tem sido brilhante. Tem mais compostura com a bola, mas quando a Inglaterra sair do grupo, como vai acontecer, precisa dos melhores defesas para defrontar os melhores atacantes. Acho que Konsa e Guehi têm melhores atributos em situações de um contra um do que o John Stones, e haverá momentos em que terão de lidar com jogadores do mais alto nível sozinhos.”
Também Paul Robinson, ex-guarda-redes da selecção, agora analista na BBC Radio 5 Live, acredita que Tuchel poderá rodar a equipa, mas por razões estratégicas e não apenas por preocupação defensiva: “A defesa pareceu nervosa por vezes, mas há que contextualizar. É o primeiro jogo de um grande torneio e a Croácia está classificada em 11.º do mundo. Já antes causaram problemas à Inglaterra e têm medalhas do Mundial e Europeu. Pode apontar-se falhas tácticas, mas o que agradou a Tuchel foi que não houve erros individuais, foi uma questão colectiva. Pode trabalhar isso nos treinos. Penso que há muita gente rápida a criticar quando, na verdade, deviam olhar para os aspectos positivos. Esta foi uma Inglaterra que jogou de acordo com os seus pontos fortes pela primeira vez.”
Com o jogo frente ao Gana já à porta, Tuchel tem pouco tempo para decidir se mantém Konsa ou aposta em Guehi no centro da defesa, e se Rashford merece a titularidade depois de mostrar serviço frente à Croácia. Uma eventual vitória em Boston poderá cimentar a Inglaterra no topo do grupo, mas qualquer erro de avaliação pode expor de novo as debilidades defensivas, que se tornam ainda mais perigosas à medida que a competição avança e a exigência aumenta. Para já, o seleccionador alemão está sob pressão máxima para encontrar o equilíbrio certo e manter viva a esperança dos adeptos de que este Mundial possa finalmente trazer a glória que foge à Inglaterra há décadas.
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