Marta Kostyuk não está apenas a surpreender nas quadras de Roland-Garros com uma impressionante série de 17 vitórias consecutivas que a colocou nas meias-finais, mas também está a incendiar o debate político e moral em torno da guerra na Ucrânia e o silêncio incómodo dos atletas russos. A jovem tenista ucraniana não hesitou em transformar a conferência de imprensa num palco onde lançou críticas contundentes sobre a postura dos seus adversários russos e a dura realidade que enfrenta enquanto representante de um país em conflito.
A sua vitória sobre Elina Svitolina garantiu-lhe um lugar entre as quatro melhores do torneio, onde vai defrontar Mirra Andreeva, uma promessa russa. Contudo, Kostyuk não se limitou a falar do jogo. Desde o primeiro momento, desviou as atenções dos seus feitos desportivos para denunciar as profundas diferenças estruturais e morais que definem o desporto ucraniano face ao russo, numa altura em que a guerra dita o ritmo da sua vida e da carreira dos seus compatriotas.
A tenista, atualmente 15.ª cabeça de série, revelou a pressão constante que os atletas ucranianos enfrentam: “A maioria dos atletas ucranianos regressa a casa para treinar. Eles não têm o privilégio que eu tenho de viajar constantemente e estar fora do perigo. Por isso, treinam no meio da guerra, vivem essa realidade, e competir assim é outro nível.” Esta declaração não é apenas um relato de dificuldades, é uma chamada à consciência sobre o que significa representar a Ucrânia em tempos de guerra.
Marta não esconde que o resultado desportivo é secundário perante o peso da responsabilidade nacional: “Estar aqui é uma verdadeira bênção e não penso em ganhar. Isso não é o mais importante para mim. Estou aqui para representar a Ucrânia e para desfrutar.” Uma afirmação que revela a dimensão humana e patriótica que assume a sua participação no torneio.
Quanto ao confronto iminente com Mirra Andreeva, a jovem ucraniana é clara: no campo, não faz distinções. “Normalmente, nunca me importo com quem está do outro lado da rede. Estou lá para jogar ténis e fazer o meu trabalho, e isso não vai mudar.” Mas fora das quatro linhas, o seu discurso torna-se mais feroz e crítico. Marta não compreende o silêncio dos jogadores russos perante a invasão e o sofrimento do seu país: “São todos adultos, sabem o que se passa, têm telemóveis, Instagram, notícias, estão claramente cientes. Gostava que tivesse uma posição mais clara sobre o que está a acontecer, especialmente quando o teu país está a matar outras pessoas.”
Kostyuk desafia a passividade dos atletas russos e lembra que existem várias formas de protestar: “Se não concordas, há formas de agir. Há figuras públicas que o fizeram. Existe uma forma de, sabes, não viver lá. Depois de quatro anos, acho que está claro de que lado eles estão. Esse é o fardo deles, não meu.” Um apelo direto à responsabilidade moral que acompanha a visibilidade pública no desporto.
Esta intervenção coloca Marta Kostyuk não só como uma promessa do ténis mundial, mas também como uma voz corajosa que usa o seu lugar no pódio para denunciar uma guerra que não escolheu, mas que a define. A sua luta ultrapassa o campo e impõe uma reflexão urgente sobre o papel dos atletas perante os conflitos geopolíticos — um tema que promete marcar a sua carreira e o próprio futuro do desporto.
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