Rui Costa volta a estar no centro da tempestade encarnada, transformado no alvo favorito de críticas, desabafos e frustrações de uma massa adepta que parece ter encontrado no presidente do Benfica o seu saco de pancada de eleição. Mesmo depois de épocas marcadas por decisões polémicas, eliminações dolorosas e arbitragens contestadas, é Rui Costa quem continua a ser responsabilizado por tudo o que corre mal no universo benfiquista, independentemente dos fatores externos ou das nuances do próprio futebol português.
O presidente do Benfica, que assumiu o cargo em 2021, vê-se agora sob fogo cerrado após a derrota na final da Taça de Portugal de 2025, alimentando uma onda de insatisfação que já vinha a crescer desde episódios anteriores, como o polémico penálti apontado contra o Benfica no jogo com o Arouca (época 2024/25) ou a mão de António Silva sancionada esta época. A contestação não se limita ao relvado: “Seis milhões de benfiquistas (aceitemos este número como certo) queixam-se de que o clube foi imensamente prejudicado na final da Taça de Portugal de 2025”, diz-se, ecoando o sentimento de injustiça que reina entre adeptos e comentadores. No entanto, muitos desses mesmos adeptos são os primeiros a dirigir críticas ferozes a Rui Costa, ignorando fatores externos que condicionaram o percurso da equipa.

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Esta tendência para transformar Rui Costa no bode expiatório de todos os males do clube levanta questões sérias sobre o ambiente de exigência e intolerância que se vive na Luz. Qualquer decisão tomada — seja renovar com um treinador em março de 2023, esperar para fechar com outro em maio de 2026, ou optar por garantir receitas essenciais ao clube — é invariavelmente alvo de contestação. “Presos por terem renovado com um treinador em março (de 2023) e presos por apenas terem querido renovar com outro em maio (de 2026). Presos por quererem receber 15 milhões de euros e presos por não terem resolvido tudo mais cedo, mesmo que isso implicasse não receber 15 milhões de euros”, lê-se, numa descrição mordaz do ciclo vicioso de críticas que não poupa o presidente.
A importância desta situação vai muito além do simples desabafo. O ambiente tóxico que se instalou em torno de Rui Costa pode ter repercussões profundas na estabilidade do clube, na coesão do plantel e na capacidade de atrair novos talentos, sejam jogadores ou treinadores. Com a contestação interna a crescer, qualquer decisão — por mais racional que seja — é rapidamente descontextualizada e usada como munição por quem procura culpados. O próprio Rui Costa reconheceu, em diversas ocasiões, as dificuldades de liderar um clube com a dimensão e exigência do Benfica, mas recusa-se a cair na tentação de personalizar batalhas ou alimentar guerras públicas: “Não errou ao não cair na tentação de fazer da apresentação de Marco Silva uma espécie de acerto de contas. Fosse ou não com José Mourinho”, sublinha-se, destacando a postura reservada do presidente num momento de grande agitação.
O presidente já admitiu que “ganhou, em cinco anos, um Campeonato Nacional, uma Taça da Liga e duas Supertaças Cândido de Oliveira. É pouco. É muito pouco. Ganhou quatro troféus nacionais em 20 possíveis. É pouco. É muito pouco.” Rui Costa não se esconde dos números, mas recusa assumir as culpas de todos os fracassos, sobretudo quando há fatores externos evidentes a prejudicar o clube. Errou ao despedir Roger Schmidt tão tarde? Sim. Errou ao não segurar Bruno Lage? Sim. Mas não se pode ignorar o contexto de cada decisão, nem exigir que o presidente seja simultaneamente o responsável por todos os males e o salvador de todas as soluções.
O futuro imediato do Benfica depende agora da capacidade de Rui Costa e da estrutura encarnada em recuperar a estabilidade interna, blindar o balneário e encontrar rapidamente um rumo desportivo que devolva títulos e confiança aos adeptos. Com Marco Silva confirmado como novo treinador, o próximo desafio é montar um plantel competitivo e responder em campo às críticas e desconfianças que se multiplicam fora dele. O clima de exigência não vai abrandar, pelo contrário: cada jogo será um novo teste à capacidade de liderança de Rui Costa e à resiliência de um clube habituado a lutar contra tudo e todos — mas que, nos últimos tempos, parece mais focado em lutar contra si próprio.
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