A aprovação do plano de actividades e do orçamento do Benfica para a próxima época foi um sinal de força por parte de Rui Costa, mas a verdade é que, nos bastidores, a casa encarnada está longe de respirar tranquilidade. Com Marco Silva já no terreno a comandar os trabalhos, a reestruturação do plantel tarda em avançar, deixando adeptos e observadores em sobressalto, sobretudo quando o acesso à fase de grupos da Liga Europa obriga a máxima concentração e preparação desde o primeiro minuto.
No sábado passado, as Assembleias Gerais do clube decorreram sem sobressaltos — um alívio para Rui Costa, que viu os sócios validarem o rumo proposto para 2024/25. No entanto, a par da estabilidade interna, persistem sinais preocupantes no que toca à composição do plantel. Vários jogadores estão ainda ao serviço das selecções no Mundial, outros mantêm o futuro em aberto, e as indefinições multiplicam-se. Marco Silva, recém-chegado ao comando técnico, quer evitar a dispersão habitual “cada cor seu paladar”, procurando um grupo verdadeiramente coeso e afinado para os desafios europeus e nacionais. Rui Costa e Mário Branco, director desportivo, têm agora a pressão de acelerar operações de mercado que parecem emperradas, sob pena de hipotecarem o arranque competitivo.

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O momento é crítico: depois de uma temporada em que Rui Costa perdeu margem de manobra junto dos sócios, a aposta em Marco Silva foi recebida como um balão de oxigénio. O novo treinador trouxe entusiasmo e esperança, mas tal capital pode esgotar-se rapidamente se a equipa não apresentar resultados práticos. Acresce que, durante a Assembleia Geral, a liderança encarnada foi confrontada com ameaças de “tolerância zero” à FPF e à arbitragem, mas o tema verdadeiramente explosivo foi a venda centralizada dos direitos televisivos.
Nuno Catarino, porta-voz do clube nesta matéria, deixou clara a posição do Benfica: “desde que não recebamos um euro a menos, que seja, relativamente ao que conseguimos, não nos opomos a que um aumento de receitas seja distribuído pelos restantes clubes.” Ou seja, o Benfica aceita o modelo de centralização apenas se mantiver intactos os seus ganhos actuais, colocando assim um travão nas aspirações de uma reforma que muitos davam já como fechada. Catarino afirmou isto no final da Assembleia Geral de sábado, vincando que a SAD encarnada não hesitará em recorrer aos tribunais caso sinta os seus direitos lesados. Este aviso público agita as águas do futebol nacional e ameaça travar o processo de centralização, um dos dossiês mais sensíveis da década para a Liga Portugal.
A importância desta posição é inegável: a centralização dos direitos televisivos é vista como um passo fundamental para a modernização e sustentabilidade financeira dos clubes portugueses, mas se o Benfica decidir avançar com uma acção judicial, pode arrastar o processo durante anos e provocar um efeito dominó devastador para as receitas esperadas pelos restantes emblemas. A incerteza sobre os valores que as operadoras estarão realmente dispostas a pagar — e não os números inflacionados que têm sido ventilados — é outro factor de instabilidade. O cenário de ruptura está em cima da mesa, e o futebol nacional pode enfrentar um novo ciclo de guerras jurídicas, com prejuízo para todos.
No plano disciplinar e da arbitragem, a saída de Duarte Gomes da Direcção Técnica da Arbitragem da FPF foi recebida com inquietação. Figura respeitada e pedagógica, Gomes distinguiu-se por fugir ao corporativismo e à opacidade, características que pouco abundam no sector. “Apesar de terem sido lançados demasiados árbitros sem experiência em jogos nos quais se aconselhavam juízes com outro traquejo, houve sempre, ao longo da última época, possibilidade de acompanhar a forma como eram avaliados, o que responsabilizava, internamente, e credibilizava, externamente”, comentou um dirigente ligado ao processo. A dúvida agora é saber se o modelo de meritocracia e transparência instaurado por Gomes vai sobreviver ao seu afastamento. O pós-Duarte Gomes será escrutinado ao milímetro — como em qualquer organização moderna, só o rigor e a separação clara entre mérito e mediocridade garantirão a credibilidade do sector.
No meio deste turbilhão, a selecção nacional também merece destaque. Diogo Costa, guarda-redes do FC Porto, foi preponderante frente à Colômbia no Mundial da América do Norte, com várias defesas de elevado grau de dificuldade a evitarem um desaire em Miami. A sua actuação, elogiada por muitos, é um bálsamo para a equipa de Roberto Martínez, que procura estabilidade defensiva antes do embate com a Croácia — um jogo que se prevê decisivo para as aspirações lusas.
O Benfica, por sua vez, terá de acelerar as decisões: com o mercado a fervilhar e as exigências de Marco Silva na mesa, Rui Costa não pode vacilar. O futuro do clube e do futebol português joga-se agora nos bastidores das negociações televisivas, nos gabinetes jurídicos e, acima de tudo, na capacidade de resposta a tempo e horas do plantel encarnado. O relógio não pára, e o ambiente de pré-temporada promete ser tudo menos pacífico.
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