Há dez anos, Leicester City protagonizou o maior choque da história do futebol moderno: um feito inacreditável que desafiou todas as probabilidades e entrou para a lenda do desporto mundial. Sob a direção do carismático Claudio Ranieri, os Foxes conquistaram o título da Premier League com odds de 5.000/1, um triunfo que até hoje é celebrado como um dos momentos mais extraordinários do futebol. No entanto, a glória de 2016 parece agora um sonho distante, pois o clube está à beira de uma queda vertiginosa que pode levá-los à League One, a terceira divisão inglesa, numa decadência quase inimaginável para um campeão nacional.
Esta temporada de 2024/25 pode ficar marcada como o pesadelo que mancha a história recente do Leicester. Depois da despromoção da Premier League na época passada — já a segunda desde o título histórico — os Foxes enfrentam a possibilidade real de cair para a terceira divisão, um cenário que só aconteceu uma vez em 142 anos, na temporada 2008/09. Na altura, sob o comando de Nigel Pearson, o clube conseguiu um imediato regresso à Championship, mas o presente é muito mais sombrio e preocupante.
Recordemos: Leicester nunca teve uma passagem longa pela terceira divisão. A única ocasião foi no longínquo 2008/09, quando, liderados por Pearson, foram campeões da League One e bateram vários recordes de invencibilidade e pontos conquistados. A equipa também quase garantiu uma subida consecutiva ao atingir os playoffs da Championship, mas acabou eliminada nos penáltis pelo Cardiff City.
A história do título de 2016 é ainda mais impressionante porque veio de uma equipa que, poucos anos antes, dominava a Championship com um plantel recheado de jogadores que iriam ficar na memória do futebol inglês: Kasper Schmeichel, Wes Morgan, Danny Drinkwater, Jamie Vardy — um investimento modesto vindo do futebol não profissional — e Riyad Mahrez, um jovem talento pouco conhecido vindo de França. A sua ascensão meteórica foi marcada por uma temporada inicial na Premier League de 2014/15 quase catastrófica, onde estiveram à beira da descida, mas conseguiram uma recuperação épica com 7 vitórias nas últimas 9 jornadas para garantir a permanência.
A chegada de Ranieri foi vista com ceticismo inicial, mas rapidamente o italiano provou o seu valor. O Leicester brilhou como nunca, com Vardy a estabelecer um recorde impressionante ao marcar em 11 jogos consecutivos, Mahrez a encantar com golos decisivos e uma defesa sólida comandada por Morgan e Huth. O momento que confirmou o título foi um triunfo brilhante sobre o Manchester City, onde Mahrez marcou um golo que ficará para sempre na história. A equipa terminou o campeonato com 10 pontos de vantagem, celebrada com Andrea Bocelli no relvado, numa imagem que ainda emociona os adeptos.
Mas se a conquista foi um conto de fadas, o final da era Ranieri não foi menos dramático. Menos de um ano depois de levantar a taça, o treinador foi despedido numa decisão chocante, após uma série de derrotas e uma inesperada luta pela manutenção na Premier League. A saída de N'Golo Kanté para o Chelsea e o declínio da forma de Vardy e Mahrez contribuíram para este desmoronar.
O sucessor interino Craig Shakespeare conseguiu um breve renascimento, com seis vitórias consecutivas, incluindo a reviravolta histórica na Liga dos Campeões contra o Sevilla, mas o sucesso foi efémero. Claude Puel, que se seguiu, teve uma passagem esquecível, com uma taxa de vitórias abaixo dos 35%, antes de Brendan Rodgers assumir o comando.
Rodgers trouxe uma nova esperança, conquistando a FA Cup e a Community Shield, e guiando a equipa a duas impressionantes quintas posições na Premier League, quase garantindo a tão desejada qualificação para a Liga dos Campeões. Contudo, a tragédia bateu à porta em 2018, quando o carismático proprietário Vichai Srivaddhanaprabha morreu num acidente de helicóptero fora do King Power Stadium. A perda abalou o clube e, apesar dos esforços do seu filho Top para manter o legado, a pandemia e dificuldades financeiras vieram complicar ainda mais a situação.
Os erros no mercado de transferências, o aumento excessivo da folha salarial — que chegou a ultrapassar os 200 milhões de libras, o sétimo maior orçamento da Premier League — e uma instabilidade crónica na gestão técnica precipitaram o colapso. Dean Smith não conseguiu evitar a descida em 2022/23 e, apesar da contratação de Enzo Maresca, cuja saída para o Chelsea fragilizou ainda mais a equipa, as tentativas de recuperação foram em vão.
Atualmente, sob o comando de Gary Rowett, o Leicester trava uma luta desesperada contra a queda para a League One, agravada por uma penalização de seis pontos devido a violações nas regras financeiras. A perda acumulada de 180 milhões de libras nos últimos três anos, a incerteza financeira e a possível desintegração do plantel pintam um futuro negro para um clube que, há apenas uma década, era campeão de Inglaterra.
O Leicester City, uma vez símbolo de superação e magia no futebol, está agora numa encruzilhada dramática, onde o passado glorioso contrasta com uma realidade dura e impiedosa. A queda iminente para a terceira divisão inglesa não é apenas um revés desportivo, mas um aviso severo sobre os perigos da má gestão e da instabilidade no futebol moderno. Para os Foxes, o desafio não é apenas regressar ao topo, mas sobreviver para contar a história que um dia os tornou imortais.
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