Cristiano Ronaldo ainda é solução ou obstáculo para Portugal?

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Cristiano Ronaldo voltou a ser o centro das atenções pelas razões menos desejadas: aos 41 anos, continua a ser titular indiscutível da selecção nacional, mas os sinais de declínio são cada vez mais evidentes e levantam uma questão incómoda para todos os adeptos portugueses — estará Ronaldo a travar o potencial de Portugal? O empate a uma bola frente à RD Congo, no arranque da fase de grupos do Mundial 2026, deixou bem à vista de todos as limitações actuais do capitão, que parece já não conseguir acompanhar o ritmo competitivo de uma grande competição internacional.

No confronto realizado esta semana, Ronaldo esteve em campo os 90 minutos, mas passou praticamente ao lado do jogo. Tocou na bola apenas 25 vezes e, durante os primeiros 67 minutos, nem um remate conseguiu efectuar. Quando finalmente tentou a sua sorte, os três remates saíram todos desenquadrados da baliza, sem qualquer perigo para o adversário, e nem uma oportunidade clara conseguiu criar para os colegas. A melhor ocasião para marcar resultou num remate atabalhoado ao primeiro poste, depois de um cruzamento rasteiro de Francisco Conceição — um lance em que teria sido preferível deixar a bola para Bruno Fernandes, que vinha em melhor posição.

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A verdade é que a questão do rendimento de Ronaldo não é nova. O capitão português já vem a evidenciar dificuldades em grandes torneios há vários anos. A sua prestação em Mundiais sempre ficou aquém das expectativas, sobretudo quando comparada com a de outros grandes nomes da sua geração. Lionel Messi, por exemplo, soma 16 golos em 27 jogos em fases finais, enquanto Ronaldo regista apenas oito em 24 jogos. Mais preocupante ainda: soma já 10 jogos consecutivos em fases finais de Europeus ou Mundiais sem marcar. O último golo em grandes torneios remonta à estreia no Mundial 2022, frente ao Gana. Desde então, passou em branco até à eliminação nos quartos-de-final e acabou mesmo por ser relegado para o banco por Fernando Santos na fase a eliminar.

Após essa desilusão, Ronaldo voltou aos golos no apuramento para o Euro 2024 frente ao Liechtenstein, mas aí está outro dado preocupante: tem sido prolífico em jogos de apuramento e na Liga das Nações, mas nos momentos decisivos, nas grandes noites, tem estado ausente. No Euro 2024 não marcou qualquer golo, apesar de ter sido quase sempre titular. A sua influência já não é a de outrora — se não marca, pouco acrescenta ao jogo, deixando saudades do tempo em que era um autêntico furacão em campo.

A explicação para este declínio pode residir na escolha de carreira dos últimos anos. Desde o início de 2023, Ronaldo está a actuar na Arábia Saudita pelo Al Nassr, onde continua a somar golos e títulos — foi campeão da Saudi Pro League em 2025/26, com 28 golos em 30 jogos — mas a exigência competitiva da liga saudita está muito abaixo da realidade europeia. As exibições goleadoras no Golfo Pérsico alimentam a ilusão de que Ronaldo mantém o nível, mas a verdade é que não servem de preparação adequada para enfrentar defesas organizadas e intensas, como a da RD Congo, que conta com quatro jogadores do sector defensivo a actuar nas principais ligas europeias.

No final do encontro, Ronaldo foi questionado sobre o seu legado e o sonho do Mundial. Em 2025, já tinha afirmado: “Não sonho ganhar o Mundial, nem deixar de o conquistar vai definir a minha carreira.” Uma declaração que gerou debate, mas que espelha talvez a consciência de que o tempo já não está do seu lado. O próprio Ronaldo sublinhou: “A minha carreira não depende de uma taça, já escrevi história no futebol mundial.” As palavras do capitão português deixam transparecer serenidade, mas também resignação, perante uma meta que parece cada vez mais inalcançável.

A selecção nacional enfrenta agora um dilema estratégico: deve continuar a apostar em Ronaldo como titular absoluto, arriscando limitar o potencial colectivo, ou terá chegado o momento de privilegiar a renovação e dar espaço a jogadores mais jovens e dinâmicos? A discussão está lançada entre adeptos, comentadores e antigos internacionais, com muitos a defenderem que a presença de Ronaldo, nesta fase, é mais simbólica do que decisiva.

Com mais dois jogos para disputar na fase de grupos, Portugal precisa urgentemente de soluções ofensivas e de uma abordagem mais colectiva, sob pena de comprometer os objectivos nesta edição do Mundial. O impacto desta situação poderá ser determinante não só para o futuro imediato da selecção, mas também para a forma como será recordada a recta final da carreira de Cristiano Ronaldo. O relógio não pára e, a cada jogo, cresce a pressão para que Roberto Martínez tome decisões difíceis. Portugal está perante uma questão de identidade: continuará refém do passado glorioso de Ronaldo ou saberá reinventar-se para construir um novo futuro?

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